Foto de capa - Fê, Carol e Tati
FOTO Gleice Bueno

Sobre Fê, Carol e Tati

Fernanda Nogueira, Carolina Toledo e Tatiana Grinfeld formam a tríade do Bazar da Praça – uma iniciativa que começou sazonal, e que agora se estabelece sem limite de tempo ou de espaço, com sua versão online. Todas psicólogas, as meninas do BP fazem uma curadoria cuidadosa e apaixonada pelas artes manuais brasileiras. O resultado desta dedicação é a seleção de produtos de artistas que amam seus fazeres e utilizam processos sustentáveis em suas criações. A lista é vasta em todos os sentidos: cada vez mais produtos (por enquanto, agrupados em Moda, Jóias E Acessórios, Decoração e Arte, Infantil e Pelo Mundo) cada vez mais expositores e cada vez mais pessoas interessadas em consumir o artesanal, o feito à mão, o resultado de um trabalho autoral e ancorado nos talentos naturais de cada artesão.

31 de março de 2015

Karine Rossi

Elas são três. Três amigas. Três psicólogas. Três mulheres que se multiplicam por três (ou mais!) para manter um sonho em pé: fomentar a arte manual brasileira. Fernanda, Carol e Tati são as meninas do Bazar da Praça – negócio que reúne produtos de artistas que honram e amam seus fazeres, optando por processos sustentáveis e justos na produção de suas criações.

O BP era um evento que acontecia duas vezes por ano. Agora, ele se mantém vivo o tempo inteiro com seu marketplace online, o qual temos o orgulho de ter participado. Nele, a gente contou as histórias de cada artesão.

E ao ouvir as histórias, uma coisa ficou bem clara: o quanto é possível se entregar a um fazer verdadeiro, o feito de corpo e alma, o fruto de um trabalho de amor.

E vai ser sempre assim, enquanto existirem pessoas como a Fê, a Carol e a Tati. Mulheres que escolhem as peças que entram no Bazar como se fossem para elas. Que se envolvem com os desafios dos expositores como se fossem delas. Que valorizam cada arte como se fosse feita por elas.  

Uma trinca de mulheres fortes, que conseguiram transformar a perseverança, a superação e o propósito em uma marca: o Bazar da Praça.

 

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Lembro do momento que a Fê me chamou para ser parceira na organização do Bazar. Estávamos em uma Van, voltando do aeroporto de Campinas, depois de passar uma temporada deliciosa na Bahia. Ela estava no banco da frente, quando olhou para mim e me fez a proposta. Aceitei na hora. – Tati 

Fizemos nosso primeiro bazar juntas em dezembro de 2007. O nome era Bazar Chic Chic e foi um sucesso! – Tati

Conheça a história de Fê, Carol e Tati

Como foi o encontro de vocês e o nascimento do Bazar da Praça?

Tati

Nós três nos conhecemos na PUC, na faculdade de psicologia. Eu já havia participado como expositora (vendendo roupas e acessórios) de alguns bazares organizados pela Fê quando ela me chamou para ser parceira na organização. Lembro do momento em que isso aconteceu: estávamos em uma Van, voltando do aeroporto de Campinas, depois de passar uma temporada deliciosa na Bahia. Ela estava no banco da frente, quando olhou para mim e me fez a proposta. Aceitei na hora, mas disse que gostaria que fôssemos só nós duas, pois antes ela tinha outras parceiras. 

Fizemos nosso primeiro bazar juntas em dezembro de 2007. O nome era Bazar Chic Chic e foi um sucesso! Decidimos que, a partir da próxima edição, os expositores teriam que estar presente durante os dias de bazar – cada um cuidaria do seu stand e seria responsável por apresentar e vender seus produtos. Esta atitude fez muita diferença, pois nada melhor do que conhecer um produto apresentado por aquele que o faz, que o criou. Tudo ganhou maior significado.  

No Bazar seguinte chamamos a Carol, que já havia sido expositora, para nos ajudar com a organização, já que eu não estava muito bem de saúde. A Carol somou muito; ela estava em sintonia com o que a gente pensava e acreditava. Além disso, trazia a experiência de uma artesã de sucesso, e a partir daí, formou-se nosso precioso trio e o bazar seguinte já se chamou Bazar Da Praça. 

 

Comecei a organizar bazares nos anos 90, na casa dos meus pais, no jardim Europa, onde sempre morei desde a infância.  Algumas diversas parcerias, até chegar ao encontro que formou o Bazar da Praça, engrossaram o caldo da experiência. O Bazar começou pequeno, chamando amigos e conhecidos que faziam algum produto interessante e distribuindo um flyer, também entre amigos. Sempre com um clima acolhedor, sempre uma ativação de rede. Muitos causos pra contar, amigos que fizeram parte dos primórdios, diferentes locações e bairros e até um bazar para fomentar um grupo de estudos da minha turma da faculdade fizeram parte dessa história. Sempre foi um movimento natural e prazeroso, mas era um trabalho surreal, porque nos primeiros bazares os expositores só deixavam os produtos e voltavam para buscar depois de 4 dias. Passamos incontáveis madrugadas conferindo estoques e tentando organizar a finalização do caixa, o volume de tudo isso aumentando e poucas ferramentas para lidar com tanta responsabilidade. Mesmo o esquema sendo esse, Carol participou de um dos bazares com sua marca Carol Toledo Acessórios e ficou presente quase o tempo todo, cuidando do seu stand e apresentando seus produtos ao público. A presença dela ali fez uma diferença muito grande e resolvemos chamá-la para caminhar junto com a gente.  

Sempre foi um movimento natural e prazeroso, mas era um trabalho surreal, porque nos primeiros bazares os expositores só deixavam os produtos e voltavam para buscar depois de 4 dias. – Fê

A formação em Psicologia tem a ver com o que vocês fazem hoje?

Carol

Costumo dizer que Psicologia foi a melhor faculdade que eu poderia ter feito. O tema me interessa demais e as pessoas são minha turma até hoje. É como se eu tivesse encontrado o meu lugar. Atuei em muitas áreas na Psicologia, fundei ONG, tive consultório particular, participei de projetos ligados à saúde e educação. A Psicanálise foi uma escola de vida para mim, um mundo novo que conheci, amei e que traz muito sentido para tudo o que percebo a minha volta. Embora nenhuma das sócias trabalhe mais com a Psicologia, ela tem muito a ver com o nosso trabalho no Bazar da Praça. Nosso olhar para os artistas e para suas singularidades, nossa escuta para suas demandas, nosso respeito pelas dificuldades, tudo isso foi muito importante para o sucesso da empresa. Os valores e princípios que embasam nossas ações vem dessa formação humanista.

A faculdade de Psicologia abriu meus olhos para um mundo ampliado. Lá conheci meu marido e muitos dos amigos queridos com os quais escolhi compartilhar essa vida. O contato com as pessoas, a escuta, a diversidade, o aprofundamento poético através da Fenomenologia, a conclusão de curso sobre Espiritualidade. A experiência de mais de 10 anos como terapeuta, a fundação e coordenação do Palavra de Bebê (programa social focado na primeira infância), o estudo da Psicanálise, a formação em yoga, a fundação do Yogando (programa de yoga para crianças), o livro que escrevi sobre a experiência de quase perder a mão em um acidente de carro…. Toda essa bagagem, junto com a de cada uma em seu próprio percurso, contribui para o que é hoje o Bazar da Praça, com sua missão focada nas relações humanas e em fomentar os sonhos de tantos artistas incríveis.

A Carol somou muito; ela estava em sintonia com o que a gente pensava e acreditava. Além disso, trazia a experiência de uma artesã de sucesso, e a partir daí, formou-se nosso precioso trio e o bazar seguinte já se chamou Bazar Da Praça. – Fê

Vocês tiveram o desejo desse “fazer” na infância? Quem as inspirou?

Carol

Sempre gostei de criar e garimpar coisas bonitas. Colecionava miniaturas, selos de cartas, papéis de carta, cartões postais. Customizava todas as minhas agendas da escola. E aprendi a amar, com minha avó e minha mãe, o fazer manual. Aprendi tricô e mais tarde crochê com elas. Depois, na adolescência, a experiência do CISV foi fundamental na minha formação. O multiculturalismo e suas manifestações artísticas e artesanais sempre me encantaram assim como a cultura da Paz, base desse movimento internacional, que veio de encontro a valores e ambições pessoais. Carrego isso comigo onde vou. Trabalhar com pessoas e para pessoas, tendo como pano de fundo o fazer artesanal era um destino bem provável. O novo desafio é empresarial e buscar esses conhecimentos tem sido muito instigante e mobilizador. Fazer o sonho acontecer. Sim, eu já queria fazer isso na infância, tocar um grande projeto no Brasil, levar ideias e ideais adiante.

Minhas inspirações: minha mãe como artista plural, meu pai como administrador financeiro com grande visão. Mais tarde, Sigmund Freud e Franklin Goldgrub, meu professor de psicanálise, com seu conhecimento do intangível. Amyr Klink, para sempre um ídolo capaz de fazer acontecer grandes projetos. Minhas sócias Fernanda e Tatiana são grande inspiração para mim também, pela força e pela alegria com que tocam seus projetos de vida. 

 

Tati

Desde muito criança gostava de fazer coisas para vender na entrada do prédio em que morava ou na praia, durante as férias. E isso nunca parou. No 1º ano da faculdade criei vários tipos de acessórios usando materiais inusitados, como colheres de plástico, guizos e alfinetes de segurança. Nessa mesma época ajudava meu pai na compra de roupas e acessórios femininos para a loja dele, que ficava em Pinheiros. Foi quando percebi o quanto eu amava a moda e comecei a criar peças cortando, recortando e bordando roupas básicas que eu comprava nas confecções parceiras da loja do meu pai.

Minha mãe e minha tia foram minhas musas inspiradoras. Minha mãe é artista plástica (já fez muitas exposições individuais e coletivas no Brasil e exterior, com pinturas, gravuras, objetos e instalações) e é professora há 40 anos na graduação e pós graduação nas áreas de artes visuais, design e arquitetura. 

Minha tia tinha, junto com outras sócias (pedagogas, psicólogas e artistas plásticas), criaram um espaço chamado Arvoredo. Era um lugar para crianças, adolescentes e adultos entrarem em contato com o corpo (através do brincar, do teatro e conversas) e também entrarem em contato com a arte, com sua história e com as inúmeras possibilidades de olhar a si mesmo, de olhar os outros e de perceber o mundo. Entrei para o Arvoredo com um ano e dez meses e sempre ouvi que fui a pessoa mais nova a entrar lá (minha mãe sempre diz que eu mal falava!) Participei de grupos até meus 15 anos. Hoje este lugar não existe mais, mas sem dúvida, provocou em mim o desejo de ser o que sou hoje.

 

Uma das minhas brincadeiras preferidas na infância era passar horas montando lojinhas. Também passava um bom tempo na casa da minha bisavó artista, entre suas telas e seu trabalho lindo e criativo. Ela começou a pintar aos 70 anos, participou de Bienais e ganhou palma de ouro por seu trabalho. Sua presença sempre foi muito inspiradora em minha vida.

Na verdade, sempre vivi cercada de pessoas inspiradoras. Meu marido me inspira com seu entusiasmo e paixão pela vida. Minhas sócias me inspiram pela integridade, amor e respeito que permeiam nossa relação. Meu pai pela mentalidade empreendedora e a vontade de continuar fazendo sempre. Minha mãe pela alegria, generosidade e desprendimento. Ela ama que o Bazar da Praça seja na casa dela, não liga a mínima de desmontar tudo, acha que a energia da casa fica ótima e alegre! 

Nosso olhar para os artistas e para suas singularidades, nossa escuta para suas demandas, nosso respeito pelas dificuldades, tudo isso foi muito importante para o sucesso da empresa. – Carol

O que tem de mais especial no trabalho de vocês?

Tati

O jeito com que cada uma de nós olha e percebe o mundo, nosso amor pela arte e o modo como fazemos isso juntas, que é a curadoria do Bazar. A pesquisa e seleção dos artistas e o respeito que temos pelos trabalhos e pelas pessoas que os produzem. E, claro, nossa amizade, que é pautada no respeito e admiração mútua.

 

O que vocês descobrem de mais surpreendente em relação às pessoas que cruzam nesse caminho? 

Carol

O desejo manifesto de construir algo interessante e diferente: uma marca, uma loja, um produto. O Bazar da Praça tem a oportunidade de acompanhar a trajetória de muitos artistas que começam do zero e, com o tempo, ganham corpo e solidez. É lindo de ver!

 

Quem faz o quê (e por quê)?

Se esta pergunta fosse feita há pouco tempo atrás, a resposta seria: todas fazem um pouco de tudo, porque durante quase todo esse tempo foi assim mesmo que aconteceu. Mas agora a empresa está crescendo e precisamos definir melhor as funções, se não fica impossível fazer um trabalho bem feito. Assim, a Carol assumiu o papel de diretora da empresa, sendo nossa mentalidade empreendedora. Ela articula nossos diversos parceiros e coordena o trabalho da nossa assistente, que ajuda com todas as questões administrativas. A Tati é responsável pela curadoria, assumindo seu “olhar de lagartixa” e trazendo a arte e a poesia para a nossa equipe. E eu sou responsável pela comunicação com os expositores em geral, pelos novos convites para o site e evento e pelo desenvolvimento do conteúdo nas mídias sociais e outros canais. 

Como é fomentar a arte manual no Brasil?

Carol

É muito interessante! Temos um povo criativo, ousado, com influências diversas e muitos sonhos na cabeça. Temos uma tradição do fazer manual no Brasil bem importante. Mas pouquíssima valorização.  Além disso, muitos artistas/artesãos não se dão conta que estão empreendendo, e não buscam conhecimento e profissionalização para a marca. O fazer manual como trabalho rentável ainda é muito pouco estimulado e creditado no Brasil. Mas muito possível e provável.

 

E quais são as maiores dificuldades?

Carol

Justamente trabalhar com esses artistas/empreendedores. Muitas vezes são sozinhos, e fazem tudo, de ponta a ponta. Ficam carentes por ouvir feedbacks do trabalho, carentes por consultorias em áreas específicas e muitas vezes atropelados pela quantidade de afazeres de uma marca artesanal. Transformar esse artesanal do contato com os expositores do Bazar da Praça em um processo otimizado e eficiente sem perder o acolhimento e a singularidade são desafios diários.

 

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 Trabalho tem a ver com “missão?” Qual é a missão do Bazar da Praça?

Sem dúvida! A missão do Bazar da Praça tem a ver com o sonho de muitos artistas. Esse ponto de partida faz nosso trabalho ser feito com muito mais energia e alegria. A nossa missão é ser referência em oferecer espaços para os artistas de todo Brasil mostrarem seu fazer a um público seleto, exigente e aberto ao fazer manual e ao trabalho autoral. Sonhamos em poder auxiliar os artistas que nos procuram a encontrar um ponto de equilíbrio sustentável para seus negócios. 

 

Quais os projetos a médio prazo? E onde querem chegar?

Tati

Trazer artistas/designers e artesãos do Brasil inteiro para o Bazar da Praça Online, apresentá-los para o maior número de pessoas  que possam se interessar pelo conceito. Prestar assessoria para os pequenos produtores, nos fortalecer cada vez mais como uma empresa prestadora de serviços de primeira qualidade. 

Queremos ser uma empresa referência em curadoria e seleção de produtos diferenciados e exclusivos no Brasil e no mundo.

Queremos apresentar o trabalho maravilhoso dos artistas brasileiros para o mundo, alcançando o mercado internacional. Além de crescer com calma, virtude e respeito às relações humanas e aos processos de produção e comercialização. 

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 Carol

Amo meu fazer porque ele me instiga, me motiva, me transforma. É um fazer muito completo, que perpassa muitas áreas do conhecimento e me coloca de pé na realidade, mas mantém aceso o sonho, os valores e a esperança na Humanidade.

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Tati

Amo meu fazer porque ele me dá alegria, saúde física, mental e espiritual e me mostra – diariamente – inúmeras possibilidades de ver a vida. Meu fazer me faz mais VIVA!

 

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Amo meu fazer porque ele me alimenta, me inspira e me convida a dar sempre o melhor de mim. 

 

Pedro Fonseca