Foto de capa - Estéfi Machado
FOTO Gleice Bueno

Sobre Estéfi Machado

Estéfi é designer. Não, desculpem, é ilustradora. Não, não, é crafiteira. Não, é fotógrafa. Não! É cenógrafa?
Sim, Estéfi é todas essas coisas e mãe em tempo integral. Porque não somos uma coisa só, não é mesmo? Principalmente quando nos entregamos para viver (e experimentar) o mundo ao nosso redor.
Ela é daquelas que manteve o olhar, a inventividade e a alegria que só uma criança tem. Vai dar certo. Sempre dá, ela diz. E deu. Estéfi hoje vive de seus fazeres criativos. Todos voltados para o universo infantil. E o melhor de tudo, pode fazer tudo isso com sua cria, o Teo, ao lado. Teo diz que sua mãe não trabalha, apenas brinca com ele. E é isso mesmo. O fazer de Estéfi é brincar. E quando brincar vira ofício, tem nome? Isso sim é privilégio.

3 de junho de 2014

Dani Scartezini

“Se a criança é capaz de se entregar por inteiro ao mundo ao seu redor em sua brincadeira, então em sua vida adulta será capaz de se dedicar com confiança e força a serviço do mundo.” (Rudolf Steiner)

Eu confesso. Li essa frase umas 200 vezes e pensei muito sobre sua complexidade. Brincar é talvez uma das coisas mais simples e mais complexas da infância. A mais séria, utilizando o paradoxo óbvio. Mas não estou aqui para escrever um artigo sobre o “Brincar”. Quem dera eu tivesse a profundidade, a vivência ou sabedoria para falar sobre essa arte das crianças, que nós, adultos, muitas vezes esquecemos em algum balanço pendurado na árvore, na boneca que mamãe fez, na cabana que tínhamos no quintal.

Pois bem, eu estou aqui pra falar da Estéfi. E Estéfi é uma dessas crianças que brincou muito, que pôde se entregar por inteira ao mundo e, agora, na vida adulta, conta para nós como é se dedicar com confiança e força a serviço do mundo.

Do mundo? Sim, afinal, o trabalho dela é inventar brincadeiras e nos fazer trabalhar com as mãos junto aos pequenos grandes mestres que são nossas crianças e, quando menos percebermos, estarmos de novo brin-can-do e oferecendo ao mundo as tais pessoas melhores!

Abre a roda que ela vai entrar. 

Seja muito bem-vinda, Estéfi. 

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“A primeira coisa que influenciou a descoberta do meu fazer foi a escolha da escola que minha mãe fez para todos nós. Ela colocou a gente na Micael, uma escola Waldorf em São Paulo. E, como alguns sabem, é uma linha pedagógica e filosófica que incentiva muito o trabalho artístico e manual, a expressão pessoal, a criatividade e tudo mais.”

“Na Steiner, a gente tecia tapete, lapidava pedra, fazia litogravura… Era quase uma faculdade de artes plásticas. Bom, quando saí de lá, não tinha ideia ainda do que ia fazer, mas sabia que seria algo que tivesse a ver com as Artes. Mas não era Artes Plásticas e também não era Publicidade. Então eu achei que Design estava no meio do caminho.”

Conheça a história de Estéfi Machado

Sou de uma família de cinco filhos. Eu e mais quatro irmãos. A primeira coisa que influenciou a descoberta do meu fazer foi a escola que minha mãe escolheu para todos nós. Ela colocou a gente na Micael, uma escola Waldorf em São Paulo. E, como alguns sabem, é uma linha pedagógica e filosófica que incentiva muito o trabalho artístico e manual, a expressão pessoal, a criatividade e tudo mais.

Eu cresci em São Paulo, onde vivi até os sete anos, quando então meu pai foi transferido para Maceió por uma oportunidade de trabalho. Fomos para ficar dois anos, mas meus pais se apaixonaram pela cidade e acabamos ficando sete anos.

Nesse tempo, eu fui para uma escola tradicional. Mas tive aquela infância de viver na rua, de pé no chão, ir sozinha pra escola a pé…. Aliás, até hoje não entendo como acontecia isso! Ir sozinho pra escola com cinco anos? E era o de cinco de mãos dadas ao de seis, que estava de mãos dadas ao de sete… Imagina? Era uma vida muito boa. Mas, chegou uma hora que meu pai achou que já estava na hora de voltar. As cidades do nordeste na época eram mais difíceis, provincianas e, além de tudo, minha mãe queria muito que voltássemos a estudar em uma escola Waldorf. Então voltamos e fui para a Rudolf Steiner, no Brooklin, em São Paulo.

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Eu sempre gostei muito de desenhar. Criava minhas próprias revistas, colava, recortava… Já criava meu próprio conteúdo, rs. Adorava inventar brincadeiras criativas para meus irmãos e colocar eles em roubadas. Pois, minhas brincadeiras demoravam três horas para preparar e meia hora para brincar, rsrs. Minha irmã mais nova sempre desistia de brincar antes de acabar a preparação!

Na Steiner, a gente tecia tapete, lapidava pedra, fazia litogravura… Era quase uma faculdade de Artes Plásticas. Quando saí de lá, não tinha ideia ainda do que ia fazer, mas sabia que seria algo que tivesse a ver com as artes. Mas não era Artes Plásticas, também não era Publicidade. Então eu achei que Design estava no meio do caminho. Nessa  época, mais ou menos em 1998, chamava-se Desenho Industrial e ninguém sabia muito bem o que era. Eu pensava: será que vou desenhar coisas para indústria? 

 

“…Quando o Teo tinha um ano, me deu um siricutico e eu quis porque quis voltar a ter um emprego fixo, carteira assinada, crachá, etc., foi uma coisa louca. Eu quis segurança, salário, essas coisas. Aí foram apenas uns meses para eu perceber que tinha caído na maior roubada. Não pelo trabalho, que foi muito bacana, mas pela loucura de ter filho pequeno e trabalhar o dia todo fora.”

Eu pensava em fazer Design Gráfico. Bom, acabei fazendo FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado). Mas, sabe? Nunca fui muito entusiasmada com a FAAP. Não tinha paixão… E aí eu levei assim: não era nem uma ótima aluna, nem péssima. Eu cumpria o que tinha que ser feito. Fiz meus estágios em agências e me formei bem na época do “boom” da Internet no Brasil. Acabei me tornando “webdesigner” (usava HTML, Dreamweaver, Flash, programava. Pode?) Trabalhei um tempo com isso e depois fui fazer algo que eu gostava mais, que era trabalhar com papelaria, marcas, marketing e tals.

Sempre soube que eu até era uma boa designer, mas nunca fui uma designer gráfica incrível, genial. Então, veio um tempo que trabalhei com design de comunidades e foi bem legal! Era uma ONG que trabalhava para as comunidades no entorno de grandes fábricas de papel lá na Bahia, com o objetivo de que a presença da fábrica não fosse algo tão agressivo para a comunidade. Eles incentivavam as pessoas a terem uma renda, utilizando os restos que vinham das fábricas. E nós, designers, íamos lá tentar ajudá-los a fazer peças com os restos do eucalipto. Trabalhei um tempo nisso, indo toda semana para lá, de teco-teco.

Foi então que eu engravidei. E lógico, a médica recomendou que eu não fizesse mais essas viagens, pois trazia riscos para a gestação. Eu saí desse trabalho e voltei a fazer freela de design gráfico, ganhei uma grana e tudo mais. 

Veio o Teo. Eu amamentava e fazia meus trabalhos como freela, nunca parei. Na época, meu marido também estava começando a carreira dele com o cinema. 

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Até que, quando o Teo fez um ano, me deu um siricutico e eu quis porque quis voltar a ter um emprego, carteira assinada, crachá, etc. Eu quis segurança, salário e tudo mais. Aí foram apenas uns meses para eu perceber que tinha caído na maior roubada. Não pelo trabalho, que era muito bacana, mas pela loucura de ter filho pequeno e trabalhar o dia todo fora. Deixava ele num berçário das 7h às 19h (coitado!) e ele chorava muito, vira e mexe era uma virose, otite e eu dando cano toda hora, saindo no meio do dia para ir buscá-lo… Até que um dia ele teve uma otite super séria e teve que ser internado. Foi quando eu me peguei com medo de falar para minha chefe que eu teria que faltar pra ficar com ele. Aí vi que tinha algo errado!

Imagina, coitadinho… Um ano, nem andava e eu pensava: sou muito louca! Se eu não posso ficar com meu filho bebê, que está precisando de mim, algo está fora da ordem. Então decidi sair do trabalho e cuidar dele. Saí e voltei para meus freelas. Montei um estúdio com uma amiga, só que não era na Av. Paulista, era na minha casa, rs. E trabalhava com o Teo às voltas. E segura esse papel, toma essa massinha, faz um desenho aqui… Ele participava de tudo.

“Aí um dia meu marido falou: você gosta tanto disso, por que não faz um blog para compartilhar essas experiências? Pronto. Eu fiz! Era o começo dos blogs. E blog de mães não era como hoje, rs. Porque hoje tem uma indústria de blogs maternos! Montei o blog e já no primeiro dia eu tive um mooooonte de acessos!”

Nessa fase eu resolvi empreender, mesmo. Corria atrás, batia nas portas, visitava clientes… Foi legal, mas não foi uma coisa muito expressiva. E o Teo lá, sempre rodeando meu universo. Ele me incentivava a inventar coisas e a gente sempre estava fazendo coisinhas divertidas juntos.

Até que eu comecei a fotografar essas coisas e escrever em um site (pessoal) tudo que a gente fazia. E então vi que as pessoas começaram a comentar muito. Elas gostavam, me incentivavam e diziam que tentavam fazer as coisas que eu fazia na casa delas. Muitos comentários eram de desconhecidos e eu achava muito esquisito!

Aí um dia meu marido falou: você gosta tanto disso, por que não faz um blog para compartilhar essas experiências? Pronto. Eu fiz! Era o começo dos blogs. E blog de mães não era como hoje, não! Porque hoje tem uma indústria de blogs maternos! Montei o blog e já no primeiro dia eu tive um mooooonte de acessos!

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Começaram a me ligar de todos os lados: do site do GNT querendo fazer uma matéria, da Abril, para fazer parte de um time de conteúdo infantil… Bom, eu não acreditava! Meu blog é sobre minha relação com o Teo e as coisas que a gente cria.

Mas, o que aconteceu foi que quem tem “olhos de ver” viu que se eu podia fazer aquelas coisas todas utilizando papéis, tecidos e sucatas, então poderia também fazer coisas como um cenário para a campanha de uma marca, por exemplo. E com isso, começou uma demanda que eu nem procurei. Foi muito bacana. 

Nunca abri o blog para colocarem banners, por exemplo, porque não era isso que eu queria. Meu blog é mesmo uma coisa muito pessoal, verdadeira . Finalmente, as pessoas entenderam que era conteúdo. As marcas começaram a me propor coisas do tipo: “- vamos fazer um post onde você usa nossa embalagem para fazer uma brincadeira?” Aí sim. Topei na hora. E eu tenho alguns patrocinadores, como a Parangolé, que se tornou super parceira. E assim foi com meus outros fazeres. Com a ilustração, com cenografia, fotografia… com tudo que o blog me abriu. O blog me levou para a rua! É isso: o blog botou o bloco na rua.

“Naturalmente sou convidada para dar oficinas, fazer ateliers com crianças e pais. Agora mesmo, vou dar uma no Mamusca sobre “monstros de massinha.”

No meio de tudo isso, eu tive um negócio que se chamava Santa Simpatia. Todas as coisas na minha vida que deram certo, aconteceram muito sem querer. É o famoso “sem fins lucrativos”, rs. Pois bem. Uma amiga da minha mãe, sessentona, queria namorar e eu fiz de presente para ela um Santo Antonio de tecido, personalizado. Me empolguei com a brincadeira e comecei a pesquisar simpatias populares… O nome na boca do sapo, a fada do dente, enfim… E fez tanto sucesso, mas tanto! Vendeu muito, foi uma loucura! As pessoas me ligavam, contavam a vida delas, encomendavam. Vendia em lojas na Vila Madalena e virou um negócio meu, muito bacana. Eu fazia o piloto, às vezes mandava estampar e terceirizava para uma costureira que me ajudava na produção.

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E acabou por causa disso: eu só queria inventar, não tinha paciência para tocar uma linha de producão. Mas fez um mega sucesso. Até hoje eu recebo emails de gente pedindo esses produtos da Santa Simpatia. Outra coisa que inventei foram os “Vodus”. Uns bonecos de mais ou menos uns 30cm, personificando alguém. Pronto: estourou! Ilustrei matérias na Trip com isso, o Alex Atalla tem um na sala da casa dele. Foi muito legal e sem querer! De novo, sem querer.

Com a fotografia foi a mesma coisa. Fiz um freela de design gráfico para um primo meu e ele: “- posso pagar com uma câmera e lentes?” Eu aceitei. Fui ficando com a câmera e as lentes, fazendo uma foto aqui, outra lá e as pessoas começaram a me perguntar quanto custava esse meu trabalho. Eu dizia: “você não está entendendo, eu não sou fotógrafa!” Mas, chegou uma hora que fiz um preço e a coisa também começou a rolar. E agora, eu fotografo para algumas revistas, faço editorial –  tudo no universo infantil.

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Enfim, a minha vida é na criançolândia, rs. Estou sempre por aí, fazendo fotos, conteúdo, ilustração, cenografia e tudo foi sem planejar. Verdadeiramente sem planos. E acho que por isso dá certo. Porque não fui atrás de nada, fiz sem esforço algum. O engraçado é que nunca eu ganhei tanto como hoje em dia e também nunca fui tão feliz. O melhor de tudo é ainda poder estar junto do Teo. Ele está sempre comigo, faz parte do meu trabalho. Outro dia peguei ele falando pra um amigo: “minha mãe não trabalha, ela só brinca comigo.” Pode? Ele é meu sócio, rs, minha mola propulsora. É minha inspiração, meu laboratório, tudo. Às vezes me contratam e dizem: “mas o Teo vai aparecer? Ele tem que aparecer!”

É isso: meu trabalho realmente é brincar. 

No momento, eu tenho colunas em alguns sites, uma parceria com a Abril, faço os cenários da Malwee e acabo de estrear no Discovery Kids um programa de passo a passo de como faço os brinquedos. Naturalmente sou convidada para dar oficinas, fazer ateliers com crianças e pais. Agora mesmo, vou dar uma no Mamusca, sobre “monstros de massinha”.

Eu costumo dizer que sou lixeira. Guardo tudo, pois tudo pode se transformar em alguma outra coisa por aqui. Eu olho para as coisas e parecem que elas me convidam: “oi, vamos ser uma outra coisa?” É um exercício do olhar. O Teo tem muito isso também. É olhar e olhar de novo. Ver o que está além do tangível. As crianças normalmente têm esse olhar.

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Tudo que eu faço hoje é muito por causa do Teo. Mas, ele vai crescer. Espero ter outra mola propulsora, mas por enquanto não chegou (Estefi passou por dois abortos e perdeu um casal de gêmeos, no parto, mas essa é outra história).

A fotografia é uma coisa que tenho vontade de explorar bem mais, de estudar. O que faço é instintivamente, não tenho uma  formação. Eu até tentei fazer umas aulas, mas o professor falou que eu ia lá para fazer terapia, que eu já sabia fotografar.

Nesse caminho todo às vezes bate uma insegurança, pela pouca estabilidade, mas não sei… Sempre acho que tudo vai dar certo. E dá!

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Não tenho planos. Deixo as coisas acontecerem. Sou uma pessoa que não faz planos. 

A única coisa certa de verdade é saber que não vou dar um passo para frente, se significar um passo para trás com meu filho. Não importa que ele já tenha 7 anos. É criança e é criatura minha. Acredito que temos que ser presentes de verdade. Olhar, cuidar. Às vezes eu saio por mais horas para alguma foto e ele fala que odeia, rs. Ele não sabe o que é uma mãe que trabalha todos os dias fora. Não tem esse parâmetro e me orgulho por ter feito essa escolha. A gente é muito cúmplice.

Tem o chavão de fazer o que se gosta e tals, mas é verdade. Se existe algo mesmo, se tem um potencial, basta acreditar um pouquinho e investir um tempo. Sim, vai ter que abrir mão de algumas coisas, mas vale a pena. E também é verdade que o universo conspira a favor. É um privilégio fazer o que se gosta e sempre compensa.

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É isso: meu trabalho realmente é brincar. 

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“…Estou sempre por aí, fazendo fotos, conteúdo, ilustração, cenografia e tudo foi sem querer. Verdadeiramente sem planejar. E acho que por isso dá certo. Porque não fui atrás de nada, fiz sem esforço algum. O engraçado é que nunca eu ganhei tanto como hoje em dia e também nunca fui tão feliz. O melhor de tudo é ainda poder estar sempre com o Teo. Ele está sempre comigo, faz parte do meu trabalho.”

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“A única coisa que tenho certeza é que não vou dar um passo para frente, se significar um passo para trás com meu filho. Não importa que ele já tenha 7 anos. É criança e é criatura minha. Acredito que temos que ser presentes, de verdade.”

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“Eu vivo na criançolândia :) “ 

Janaína Benke | Prem Samit