Foto de capa - Fabi Diaz
FOTO Arquivo pessoal

Sobre Fabi Diaz

Fabi nasceu em São Paulo, se formou em Arquitetura, abriu um bar na Vila Madalena, depois largou tudo e foi parar em Barra Grande, na Bahia. Mas as belezas naturais de lá conviviam com a pobreza e o abandono, problemas que despertou o desejo de ajudar. Fabi juntou um grupo e abriu uma escola Waldorf. Hoje, com 40 anos, casada e mãe, ela ensina 70 crianças e se prepara para mais: mais crianças, mais educação e mais chances de melhorar o mundo.

27 de agosto de 2012

INTRODUÇÃO 

“O sonho obriga o homem a pensar”, nos ensina o geógrafo Milton Santos. Lembrei dele hoje cedo quando me preparava para escrever nossa Flor – a história de Fabi Diaz

Foi o amor por um lugar, o povoado de Barra Grande, em Maraú (BA), que moveu Fabi a realizar um sonho, cujo poder transformador ainda não se dá conta de dimensionar. Ela saiu de São Paulo disposta a ser mais que uma turista, decidiu oferecer as pessoas do lugar esperança para construir uma vida melhor. Escolheu a educação e a pedagogia Waldorf como instrumentos e deu início à Escola Comunitária Jardim do Cajueiro – um espaço para o aprendizado através da arte, da música, do convívio social e da consciência ambiental. 

A vontade era grande, os recursos pouquíssimos. Mas, Fabi batalhou e conseguiu apoio de amigos e simpatizantes que se tornaram padrinhos no sonho, que então já era coletivo. 

E o sonho seguiu ganhando formas e contornos reais. A escola, que já funciona há seis anos e atende prioritariamente crianças de famílias de baixa renda (75% das vagas) – já beneficia 70 famílias e está prestes a ganhar uma sede própria. O terreno foi doado pela prefeitura do município, mas é preciso ajuda de mais padrinhos para colocá-la de pé! 

Às vezes, a gente fica cheio de boas intenções, pensando em estratégias mil para fazer a nossa parte na construção de um mundo melhor e, sem saber por onde começar, se perde nas ideias e acaba sem sair do lugar. Fica aqui o convite para simplificar e fazer parte de um sonho que já encontrou seu caminho para ser real.

 ”Lembro-me de nunca ter tido um dia sem querer ir para a escola, mesmo com prova de matemática, física ou química que nunca foram meus fortes. Estar na escola, era sinônimo de ser feliz.”

“Nasci em SP, tenho 40 anos, um filho lindo de três anos, e um marido com quem quero passar o resto da minha vida. Estudei a vida toda na mesma escola, e de lá aprendi a ser feliz.”

Conheça a história de Fabi Diaz

Fabi por ela mesma

Nasci em SP, tenho 40 anos, um filho lindo de três anos, e um marido com quem quero passar o resto da minha vida. Estudei a vida toda na mesma escola, e de lá aprendi a ser feliz. (Escola Rudolf Steiner de SP).
Lembro-me de nunca ter tido um dia sem querer ir para a escola, mesmo com prova de matemática, física ou química que nunca foram meus fortes. Estar na escola, era sinônimo de ser feliz. De lá sai com muitos amigos de uma vida inteira. Sem dúvida, uma das minhas maiores riquezas.
Entrei na faculdade de arquitetura depois de um ano de cursinho e estava tranquilamente seguindo a vida. Até que o mundo soprou forte demais e uma reviravolta aconteceu em minha vida. Minha mãe morreu assim, totalmente de uma hora para outra. Além de muita dor, uma sensação de estarrecimento tomou conta de mim.

Mas os amigos estavam lá, a família estava lá e a alegria de viver continuava comigo. No entanto a realidade era outra, as coisas não aconteciam mais naturalmente, eu precisava cuidar para que elas acontecessem….assim nasceu o “Ó do Borogodó”, algo precisava acontecer.

Estava na faculdade e precisava trabalhar para ganhar dinheiro, ao menos para garantir a cerveja do dia-a-dia. Eu, um grande amigo e meu namorado na época começamos o projeto bar. – “Vamos abrir um boteco? Sim!” Mas tem que ser boteco mesmo…mas tem que ter charme, a música tem que ser ótima! É mas tem que tocar de tudo… Tem que ter cerveja gelada e assim todos os principais conceitos do Ó nasceram… Então começamos a procurar o lugar. Depois de uma semana percebemos que  o projeto estava praticamente fora das nossas possibilidades, afinal não tínhamos nada para investir… Os aluguéis eram impraticáveis. Bom, nisso apareceu um lugar de 16m2 atrás do cemitério SP, na vila madalena. Ótimo, com muita coragem e vontade resolvemos que seria ali mesmo que realizaríamos nossos sonhos. Alugamos o lugar e no mesmo mês o inauguramos, pois precisávamos pagar o aluguel com o lucro da cerveja. Mas como garantir a freguesia??? Eba! Não se preocupem eu tenho muitos amigos. E assim foi… Do dia em que abrimos o bar, ele nunca esteve vazio. Lotado todos os dias de sua existência. Foram sete anos de vida noturna, momentos inesquecíveis de uma geração, casamentos, amores, amizades, diversos cursos universitários completos e festejados. Muita felicidade, muita alegria, muita história e muito cansaço, também. Até que meu irmão e eu resolvemos ter uma vida normal (os sócios saíram e meu querido irmão entrou). Passamos o bar, que existe até hoje e continua fazendo história.Depois de alguns meses sem bar em SP, aprendendo a me reconhecer fora de lá, resolvi vir de férias pra Bahia, Barra Grande, terra de Calu (grande amiga de faculdade).

Não queria pousada, queria alugar uma casa. Alguns contatos e pronto, casa alugada, um mês de Bahia, eba!!! Chegando aqui a vida mudou… As coisas foram ganhando outro ritmo, outro significado. O tempo daqui era outro, a liberdade se esbarrava na falta de compromisso, mas me fascinava… Facilmente me adaptei e apesar de todos terem certeza que a baladeira paulistana iria voltar logo mais, eu fiquei de vez.

“Tantas crianças soltas, que lindo, mas será que não estão soltas demais? Que liberdade é esta que se mistura tão facilmente com o abandono?”

Uma vez aqui, a vida daqui foi me preenchendo. Muita saudade dos amigos, de meu tão amado pai.  Mas um sentido maior que eu havia perdido não sei bem aonde, voltou. Entretanto a vida tão linda desse lugar, corre tantos riscos. A natureza, a sociedade, enfim, fui percebendo que as coisas não funcionavam como poderiam ou ao menos como eu achava que deveriam. Tantas crianças soltas, que lindo, mas será que não estão soltas demais? Que liberdade é esta que se mistura tão facilmente com o abandono? Tanta gente que não se “vende” ao trabalho – bacana; mas que falta de profissionalismo era este?Enfim,uma comunidade que começava a crescer e com características que apontavam para uma crise social. Nisso tudo, minha grande habilidade de fazer bons amigos me seguiu e também aqui fiz amigos muito sinceros e bacanas. Então juntos começamos a pensar em fazer algo para Barra Grande. Logo depois do verão, tivemos a informação de que haviam diversas adolescentes grávidas. Precisávamos trabalhar com elas, mas tínhamos que cuidar das crianças. Sim vamos, mas vamos trazer a pedagogia Waldorf, afinal nasci e cresci nela. Lindo.

Mais uma vez algo precisava acontecer.
E por estas grandiosidades do destino, passavam férias aqui faziam anos, duas pessoas incríveis: Leni e Helô – professoras do colégio Micael de SP, que, em seus mergulhos e pôr do sol, sonhavam com a possibilidade de se aposentar com uma escola Waldorf aqui. Então, juntamos “a fome com a vontade de comer”. Nós jovens que já morávamos aqui e as mais experientes que moravam fora. Nasceu o Jardim do Cajueiro, escola Waldorf de Barra Grande.
Com a sede emprestada pela Helô, montamos as duas primeiras turmas. O projeto vivia com dinheiro de apadrinhamentos, pessoas que apoiavam nossa ideia que garantiam o funcionamento da escola. Precisávamos de 24 padrinhos, pois haviam 24 crianças. Conseguimos apenas 16, mas conseguimos fechar o ano… Tira daqui, doa de lá, busca de cá e tal.

Roberta e eu, seríamos as professoras – começamos a fazer seminário de professores Waldorf em Nova Friburgo no Rio.
Desde o início, toda a gestão da escola era feita por nós, professoras, sempre incentivando a participação dos pais e continua assim até hoje.
E assim, ano após ano, com muita dificuldade, persistência e alegria, íamos conseguindo fechar as contas. Uma peculiaridade nos acompanhou desde o início da escola: como a casa era emprestada nos primeiros três anos, tínhamos que desmontar a escola nos meses de verão. Depois que saímos da casa da Helô, continuamos com esta grande dificuldade: empacotar tudo todo final de ano. A cada ano novo, tínhamos que procurar um espaço que coubesse no nosso orçamento e que nós coubéssemos com todas as crianças que cresciam a cada ano.
Como a gestão da escola sempre foi feita pelos pais, demorou muito para que conseguíssemos nos organizar burocraticamente, ainda mais com a falta de espaço físico para secretaria e tal. Mas a experiência foi nos mostrando o caminho e hoje temos uma estrutura administrativa mais sólida. Porém, ainda é toda feita de forma voluntária pelos pais que buscam sempre aprender com o processo da escola e suas necessidades, ano após ano.

A coragem sempre presente, o olhar para as crianças, as necessidades delas e de suas famílias, nos norteava e a costura era feita através de muito estudo, antroposofia e pedagogia waldorf. Em 2011 demos um passo grandioso. Tínhamos que abrir o ensino fundamental, todos os pais envolvidos já estavam no limite e era isso ou isso. Então encaramos o desafio! Abrimos a primeira turma do primeiro aninho do ensino fundamental da Escola Comunitária Jardim do Cajueiro. E cá estamos neste enorme desafio. Agora não temos apenas uma escola com X alunos, temos uma escola que cresce a cada ano e, com isso, os desafios, o orçamento, as pessoas envolvidas, enfim o sonho todo cresce a cada ano. A escola ainda vive de apadrinhamentos. Pessoas que pagam os custos da manutenção de uma criança na escola. Como trabalhamos com 75% de bolsitas, este apadrinhamentos são fundamentais.  A ajuda de cada um é importantíssima e estamos sempre nesta batalha de conseguir cada vez mais padrinhos.
Este ano conseguimos uma ajuda financeira para a construção de nossa sede própria, outro grandioso sonho! Ganhamos um terreno da prefeitura em reconhecimento por nosso trabalho e depois de um ano de batalha começamos nossa obra. Temos apenas um terço do valor total da obra, e para concluir este importante passo, precisamos também da participação de todos que possam ajudar de alguma forma, ou doando ou nos ajudando a captar estes recursos.

O tamanho da escola, 70 crianças hoje, e com a previsão de crescimento de uma turma por ano, já está com proporções que não cabem mais em casas alugadas. Precisamos mesmo de nosso espaço.
Os planos são grandes, não dá mais para desistir, agora somos muitos, muitas famílias, muitas vidas, muitos destinos… A empreitada é enorme.
Sinto que precisamos de mais e mais sonhadores conosco: tocar corações é nossa meta, transformar amorosamente é nosso desafio. Quero proporcionar com essa história, um verdadeiro foco de luz para iluminar as diversas possibilidades de caminhos que existem para todos aqueles que cruzam o nosso caminho, e que de alguma forma, querem ajudar a fazer um mundo melhor.

“Sinto que precisamos de mais e mais sonhadores conosco: tocar corações é nossa meta, transformar amorosamente é nosso desafio.”

Daniella Zylbersztajn Helô Galvão