Foto de capa - Fabiane Secches
FOTO Pétala Lopes

Sobre Fabiane Secches

Fabi é editora. Mineira, veio para São Paulo com 17 anos para estudar Direito na São Francisco. Hoje, ela tem 34 e nas páginas da sua história estão escritas a paixão pelo cinema – que a levou às aulas de roteiro na ECA-USP – e o desejo de explorar sua imaginação criativa, que a fez estudar redação publicitária e trabalhar durante anos em agências de conteúdo. Mas Fabi ouviu o seu amor primordial pelas palavras. Foram elas que a levaram para onde está agora – dedicando toda sua paixão, tempo e talento à Confeitaria – uma comunidade literária online que reúne mais de 40 autores, além de entrevistas, matérias e iniciativas especiais que surgem do coletivo. O projeto se transformou em um selo editorial e já tem dois livros publicados. Discreta como uma boa mineira, Fabi vai conquistando o seu lugar, se destacando cada vez mais na cena das editoras independentes de São Paulo.

  • http://confeitariamag.com/

28 de abril de 2015

Por Karine Rossi

 

É tanto teor que se tece

Textura que por si mesma acontece

Só um texto de amor te merece

(KR)

Uma menina doce. Uma mulher forte. Uma voz de criança. Um grito apaixonado pela arte da palavra. A combinação dessas polaridades constrói a beleza de Fabi Secches – menina que deixou Minas Gerais ainda bem nova, para ingressar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, e fazer como fizeram José de Alencar e tantos outros ícones da literatura brasileira. 

Mas a formação na São Francisco serviu para libertar o que ela tinha no coração desde criança: o amor pela literatura. 

Fabi fala que o mundo dá voltas. Bom, foi isso mesmo que aconteceu. Ela trocou os textos formais em preto e branco pelos criativos e coloridos da publicidade, onde conseguiu expressar sua criatividade inspirada pelos livros e filmes – suas maiores paixões. A experiência foi mais um capítulo da sua história, que agora se desenrola numa narrativa fluída e envolvente.

Hoje, Fabi é editora e se dedica exclusivamente ao seu projeto Confeitaria, uma comunidade literária que nasceu como site, cresceu como editora e já se desdobra em loja. Nós, da AMF, adoramos acompanhar essa história. Cada novo capítulo deixa o enredo ainda melhor. Ficamos entusiasmadas com as conquistas da Fabi e sempre ansiosas para saber o que vem nas próximas páginas.

Como em um bom livro. Cujo o fim é sempre um recomeço.

 

Desde muito cedo, descobri que escrever era minha forma de me relacionar com o mundo, de estar presente, superar angústias e também me divertir. Quase que a minha forma de existir.

Duas amigas que gostavam de ler e de escrever convidaram alguns outros amigos para uma comunidade literária, um site onde cada um pudesse ter um espaço para escrever seus textos autorais sem preocupações políticas ou estratégicas.

Conheça a história de Fabiane Secches

Eu sou mineira e tenho 34 anos. Desde muito cedo, descobri que escrever era minha forma de me relacionar com o mundo, de estar presente, superar angústias e também me divertir. Quase que a minha forma de existir. Quando eu era criança, escrevi um livro infantil, fui vice-presidente do Clube de Leitura (tinha muito orgulho desse título!) e editei uma revista coletiva no colégio. É engraçado lembrar, porque a gente só tinha aqueles computadores imensos em casa, nada de internet. Fiz tudo usando DOS e imprimi naquelas impressoras antigas, que a gente precisava destacar a lateral com bolinhas. Olhando para trás, faz muito sentido estar hoje aqui, com a Confeitaria e outros projetos editoriais.

A gente sempre dá voltas, dificilmente caminha em linha reta. E ainda bem, porque seria muito chato. Mas é tão legal quando a gente vê que não se perdeu e, de um jeito ou de outro, acabou chegando no lugar que queria estar. Sobre as voltas que a gente dá, um pouco das minhas: vim pra São Paulo aos 17 anos quando passei na Faculdade de Direito da USP. A São Francisco é um lugar muito importante para a literatura brasileira, com tantos autores que fizeram história tendo passado por lá – como Álvares de Azevedo, Castro Alves, Augusto de Campos, Fagundes Varela, Haroldo de Campos, Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles. Foi um privilégio para mim estar lá por cinco anos. Estudei matérias que levo para a vida, como filosofia, sociologia, comportamento humano, lógica e hermenêutica. Estudei latim como matéria opcional e participei de um ambiente cultural muito rico, como as récitas de poemas da Academia de Letras da faculdade, no túmulo de Julius Frank. Mas, mesmo que eu tenha me formado, já na metade do curso eu sentia que meu caminho era outro. 

Em 2014, publicamos o nosso primeiro livro, “Amor, Pequenas Estórias”. Para esse primeiro livro, não pensamos em olhar para fora: convidamos todos os nossos autores a participar e escrever um texto de até 800 caracteres com o tema “amor”.

Ainda trabalhei por quase dois anos em um escritório grande, o Pinheiro Neto Advogados, e comecei uma pós graduação na Universidade de Coimbra, em Portugal. Mas acabava sempre indo para outro lado: fui escolhida como editora da seção de cultura do primeiro jornal online da São Francisco e fiz aulas de roteiro aos sábados na própria USP, em um curso da ECA. Também fiz oficinas de jornalismo e fotografia no Museu de Arte Moderna. Assim que me formei, comecei a escrever resenhas para um site de cinema e, mais tarde, fui estudar redação publicitária na Miami Ad School/ESPM – o que me trouxe para o universo da publicidade. Trabalhei por muitos anos com conteúdo de marca. Estava feliz por ter encontrado dentro da publicidade um espaço em que eu pudesse estar mais próxima de outras áreas criativas mais afinadas comigo. No final de 2014, uma nova mudança: deixei meu emprego como gerente de conteúdo para me dedicar à Confeitaria.

A Confeitaria foi criada por mim e por uma amiga querida, a Flávia Stefani Resende, em 2012, como um projeto lateral. Conheci a Flávia durante o Festival de Cannes de 2008, por acaso, lá na França. As duas moravam a milhares de quilômetros dali, e a milhares de quilômetros uma da outra (eu em SP, ela na época em NY e agora em SF). A gente estudou na mesma escola (a Miami), mas em épocas diferentes. O coordenador da Miami sempre me dizia que se lembrava dela quando me via, embora a gente não seja parecida fisicamente. E acho que de alguma forma ele enxergou algo aí: desde que a gente se conheceu, nos tornamos grandes amigas. Amigas para a vida, com uma afinidade de alma inexplicável, embora também sejamos muito diferentes. Admiro muito a Flávia – temos sempre aquelas conversas de entranhas, a gente é muito complicada e problematiza tudo, mas se diverte muito juntas também. As conversas com ela são sempre maravilhosas. É raro encontrar alguém assim na vida, com quem a gente sente que pode conversar sobre qualquer assunto. Um projeto que começa com uma amizade como essa já começa muito significativo pra gente. Foi assim com a Confeitaria.

Duas amigas que gostavam de ler e de escrever convidaram alguns outros amigos para uma comunidade literária, um site onde cada um pudesse ter um espaço para escrever seus textos autorais sem preocupações políticas ou estratégicas, com uma liberdade que só um projeto editorial neutro e independente poderia nos dar. Com o tempo, mais amigos se juntaram à gente e a comunidade foi crescendo. Hoje temos mais 40 autores, além dos ilustradores e colaboradores que estão com a gente e digo comunidade porque somos mais do que um coletivo, temos realmente uma troca muito legal entre as pessoas que estão lá.

A gente sempre dá voltas, dificilmente caminha em linha reta – e ainda bem, porque seria muito chato. Mas é tão legal quando a gente vê que não se perdeu e, de um jeito ou de outro, acabou chegando no lugar que queria estar. 

Uma das características mais essenciais da Confeitaria é a diversidade. Como editora do site, tento respeitar os interesses, estilos e referências de cada autor. Interfiro muito pouco, porque acho que essas diferenças oferecem ao leitor um mosaico interessante. É bem provável que um leitor goste muito de ler um de nossos autores e não goste nada de outro — e tudo bem que seja assim. Gosto de pensar que é um espaço onde não apenas os autores têm autonomia, como os leitores também.

 Em 2014, publicamos o nosso primeiro livro, “Amor | Pequenas Estórias”. Para esse primeiro livro, não pensamos em olhar para fora: convidamos todos os nossos autores a participar e escrever um texto de até 800 caracteres com o tema “amor”. Mas não apenas o amor romântico. Não era uma mensagem de “mais amor, por favor”. Era um convite para pensar o tema para além de seus estereótipos e clichês. Escolher um assunto tão universal foi uma decisão que fez bastante sentido, porque sendo uma comunidade com tanta diversidade, o olhar sobre o assunto seria também bastante plural. Essa universalidade do tema não evita que ele continue sendo percebido e vivido de maneira diferente por diferentes pessoas. Acho que essa impressão fica com o leitor que lê as 40 pequenas histórias ilustradas do livro e ficamos felizes por isso.

Então fizemos esse primeiro livro voltados para a nossa comunidade: uma tiragem pequena, de 400 exemplares, pensando nos autores e suas famílias e amigos próximos, além dos leitores que nos acompanham mais de perto. Mas ficamos sinceramente surpresos com a recepção: o lançamento recebeu mais do que o dobro de pessoas que a gente esperava e em pouco tempo o livro estava esgotado. A segunda edição saiu poucos meses depois e também se esgotou. Agora estamos na terceira.

O aprendizado com esse primeiro livro foi imenso. Antes eu já tinha feito alguns cursos livres de editoração, mas nada substitui a aventura prática. 

O aprendizado com esse primeiro livro foi imenso. Antes eu já tinha feito alguns cursos livres de editoração, mas nada substitui a aventura prática. Desde reunir um time tão talentoso e mobilizar todos em volta de uma ideia até a execução mesmo, passando por produção gráfica, foi tudo muito novo para a gente. Muitas noites em claro e muitos desafios, mas cada obstáculo que a gente superava ou contornava nos fazia ter mais certeza de que esse era um caminho que a gente queria seguir. Estou usando o plural porque meu grande parceiro nessa empreitada foi o Thiago Thomé, que é coordenador de arte da Confeitaria – e meu marido há um ano.

O Thiago é formado pela California College of Arts, em São Francisco. Depois estudou design na Miami Ad School também. A gente se conheceu nessa época, através de amigos em comum. Ele já era um talento super admirado e premiado na Miami. Eu o admirava, mas a gente só foi namorar mesmo alguns anos depois. Quando nos reencontramos também tivemos um encontro muito forte, não apenas no sentido romântico, mas um encontro de almas inquietas, que queriam coisas parecidas da vida. E com isso ele acabou se tornado meu sócio na Confeitaria e me ajuda muito no dia a dia – mesmo fazendo dupla jornada (ele é coordenador de design na Ana Couto Branding). O Thiago assumiu principalmente toda parte de arte, que sempre foi um pilar bem importante pra gente, e tem sido essencial.

Com a Confeitaria, eu aprendi muito sobre mim mesma: hoje minha relação com a literatura é um pouco diferente. Sou uma leitora e estou aprendendo a ser editora. Escrevo muito, mas não sou uma escritora. Ou, sou uma escritora mediana. Mas posso ser uma editora melhor e uma leitora melhor. Eu me sinto um pouco como a Frances Ha, personagem do filme homônimo, que amava dançar desde sempre e tinha estudado para ser bailarina. Em algum momento da vida ela se deu conta de que aquilo não ia acontecer, que ela era uma bailarina apenas razoável. Então, depois de algumas cabeçadas, ela percebe que não precisa deixar de fazer o que ama e que pode ser uma talentosa coreógrafa. Gosto muito desse filme porque me identifico. Acho que me encontrei como editora – e como leitora também. Escrever ficou menor que isso.

E hoje além do site, que funciona como uma revista online de conteúdo vertical (textos de ficção e não ficção: contos, crônicas, poemas, ensaios, artigos, resenhas, entrevistas), temos outras duas frentes: a loja online, que é uma galeria para prestigiar a obra de ilustradores, escritores e outros artistas que trabalham com a gente, e a editora. Lançamos nosso segundo livro, “Não conheço ninguém que não seja artista” – agora sim já pensando no mercado editorial e em projetos futuros. Esse segundo livro é muito precioso para mim também, porque estamos de novo em ótima companhia: é uma coletânea de 20 poemas e 20 fotografias que dialogam entre si. As poesias são de Ana Guadalupe, escritora que admiro muito, e as imagens de Camila Svenson, que tem um olhar muito sensível. Estamos contentes com o resultado e espero que os leitores do livro tenham uma experiência tão bacana como a que tive no processo. Foi de novo um livro coletivo, embora mais intimista. Essa conversa entre pessoas e visões de mundo diferentes, mas que coexistem de uma maneira que pode ser bela, é algo que fizemos questão de ter aqui também. O livro foi lançado na última Feira Plana, que aconteceu em março, no MIS, em São Paulo. A Feira Plana é o maior evento de publicações independentes do Brasil, um acontecimento para quem se interessa tanto por esse universo. A edição de 2015 teve a fotografia como tema, então achamos que era a ocasião ideal para lançar.

Estou também criando uma editora infantil com uma amiga, a repórter e tradutora Juliana Cunha. A Juliana é formada em Letras pela USP e uma das vozes mais expressivas da nossa geração. Sempre fui fã dos textos dela. Na verdade, já trabalhamos juntas há um bom tempo na Confeitaria: ela está com a gente desde o começo, primeiro como autora, agora como parte da equipe também. Tenho sorte: a Juliana é brilhante. Começar a editora infantil ao lado dela tem sido uma alegria pra mim.

2015 tem sido um ano muito bom. Fiz escolhas difíceis, como deixar meu emprego e embarcar em uma aventura incerta. Mas na real tudo é tão incerto que acho que se tem alguma certeza dentro chamando pela gente, como eu tenho em relação a meu interesse pela literatura e pelas trocas que ela permite, então não dá pra ignorar. Não saberia ser feliz de verdade de outra forma. 

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Com a Confeitaria, eu aprendi muito sobre mim mesma: hoje minha relação com a literatura é um pouco diferente. Sou uma leitora. Estou aprendendo a ser editora. Escrevo muito, mas não sou uma escritora. 

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Eu amo meu fazer porque sinto que a Fabiane adulta e a Fabiane criança voltaram a se encontrar e que agora é possível contar a minha história e a dela, como uma só história.

 

Fê, Carol e Tati – Bazar da Praça