Foto de capa - Gisele Dias
FOTO Gleice Bueno

Sobre Gisele Dias

Gisele Dias é A Modista. Mineira, deixou a carreira de designer em Belo Horizonte e seguiu para São Paulo. Há oito anos, montou seu atelier nos Jardins – numa casa de época restaurada com cuidado para levar suas clientes a um tempo em que o universo da costura fazia parte da vida cotidiana das pessoas. Lá, cria vestidos românticos, femininos, leves e delicados que já ganharam o mundo. Trabalha com rendas, flores e histórias, transformadas em vestidos e peças sob medida para celebrar sentimentos profundos e verdadeiros.

24 de setembro de 2013

“É preciso começar a perder a memória, mesmo que a das pequenas coisas, para percebermos que é a memória que faz nossa vida (…) Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nosso sentimento, até mesmo nossa ação…”

Desta vez encontrei Gisele costurando. Já havia estado lá outras vezes, mas, a sensação de atravessar o tempo que qualquer um tem quando entra no atelier A Modista agora levou-me direto aos meus 15 anos. Ela recortava flores na renda branca e naquela imagem eu reencontrei minha mãe, trabalhando no último vestido que fez para mim. Enquanto a olhava, mergulhada em lembranças quase apagadas, Gisele me contava sua história, falava da própria infância, da casinha de costura da sua mãe, em Pedro Leopoldo (Minas Gerais), onde tudo começou.

Soube que, das roupas de boneca que aprendeu a costurar aos lindos vestidos que hoje leva ao altar, Gisele percorreu um caminho pouco linear. Estudou design, trabalhou na área por alguns anos, interessou-se por colagens. Mas, “por algum motivo inexplicável”, manteve o hábito de comprar roupas antigas para entender como eram feitas.

Casamentos eram um universo um tanto fora de interesse para a moça, a não ser pelos vestidos e fotografias antigas de noivos, pintadas em pratos de lembrança, que encontrava pelo centro de Belo Horizonte. Com ansiedade de uma noiva (que não fui) me preparei para entrevistar Gisele, li trechos dos livros e assisti aos filmes que ela indicou como referência do seu trabalho. Queria muito entrar um pouco no universo barroco daquela mulher tímida, que cria os vestidos mais bonitos do mundo.Entender de onde vem tanta delicadeza e singelice, tanto refinamento, tanto respeito pelo tempo.

Pesquisa feita, roteiro pronto, tudo acertado e, no dia do encontro, a coluna trava. Não consegui sequer levantar da cama. Não dava mais tempo de desmarcar… Era a primeira história da #AMF captada pelos parceiros da Fina Fimes e eu não estaria lá. Chorei de raiva, mas nem fiz falta… Nossa equipe captou imagens oníricas e o depoimento mineiríssimo da Gisele que você assiste aqui.

Eu ganhei, semana depois, um encontro só nosso. Íntimo, calmo, com direito ao famoso bolo com chá que ela serve por lá… Pude olhar demoradamente para as rendas, tecidos, diademas, máquina de costura e flores que brotam em cada pedacinho daquele lugar encantado. Ouvi Gisele contar sua vida, falar da família, do amor que vive do outro lado do mundo, dos sonhos e, maior dos privilégios, ouvir e captar seu silêncio no plic-plic-plic das costuras.

Entendi que pouco tem a ver com moda o fazer da Modista. Gisele busca e fala daquilo que permanece, guardado com carinho, mesmo quando foge à memória. Ela conta histórias em forma de vestidos e, hoje, todas falam de amor. 

“Acredito que a filosofia de vida que me move e também move o trabalho de A MODISTA é um grande diferencial: a celebração dos sentimentos mais profundos e verdadeiros por meio do traje de noiva…”

 

“Acho que uma frase do Walt Whitman é que melhor me define: “Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim.”

Conheça a história de Gisele Dias

Cresci e vivi praticamente metade de minha vida em Minas Gerais, do lado de Belo Horizonte. Tudo começou dentro da casinha de costuras da minha mãe. Ela foi decisiva na minha escolha e formação. Aprendeu a costurar com uma modista, fazia as roupas dos quatros filhos. Passamos a infância dentro dessa casinha, brincando entre máquinas de costura e agulhas, fazendo roupas de bonecas, para nós mesmas e até para a bicharada, que sempre estava presente. Já adolescente, minha mãe teve uma loja e confecção para bebês e eu a ajudava a desenhar as roupas. Cheguei, ainda nessa época, por volta dos 14 anos, a desenhar para uma fábrica de jeans da cidade onde morava, Pedro Leopoldo (MG), mas como não me pagaram… (risos), desisti dessa história de desenhar roupas.

Depois, fui estudar em Belo Horizonte. Nunca tive, na verdade, muita ligação com moda. Gostava de inventar roupas para mim, que minha mãe fazia. Mas, meus interesses sempre foram os mais diversos como, por exemplo, colagens. Me formei em design, mas por algum motivo inexplicado, continuei a pesquisar por conta própria sobre modelagens antigas. Sempre fui auto-didata. Aprendi tudo observando. Mas, não me iteressava mesmo por frivolidades do mundo da moda. Gostava das formas, de entender sobre a técnica e saber como uma peça chegava a uma forma específica ou como foi feito determinado acabamento. Quando me dei conta estava fazendo roupas românticas e cheias de emoção.

Há 16 anos, mudei-me para São Paulo um pouco por impulso. Mudei em uma semana, a procura de novas experiências profissionais. Não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Só sabia que não queria mais ficar lá em Minas. Precisava de novos ares, novas informações e novas experiências. Mudei sem conhecer absolutamente ninguém. Foi corajoso e inconsequente ao mesmo tempo. Mas foi otimo!

A Modista abriu em 2005. Foram tantas dificuldades… É normal encontrarmos muitas delas quando decidimos fazer algo novo que não dominamos. Abandonar uma profissão é uma difuculdade. A passagem de uma coisa para outra implica escolhas… Escolher e escolher certo é tarefa dificil! No meu caso, sou exemplo de alguém que tinha uma carreira e foi para o comércio. Sim, é comercio! A gente não se lembra dessa parte quando decide montar um negócio e tem uma cabeça criativa. Particularmente, sofri bastante lidando com gente. Assumo que não sou a pessoa mais sociável do planeta. Sou muito, muito reservada, nunca tive muito contato com público e o comércio me obrigou a isso. Foi bem dificil no começo. Mas, na verdade, foi uma grande escola. As dificuldades nos fazem crescer, quando temos humildade para aprender com elas.

” O passado nos ensina muito. A técnica era mais apurada, as pessoas tinham mais tempo para se dedicar, o mundo era mais tranquilo e a vida menos corrida. Temos que aprender muito com o passado.”

A loja foi sempre muito feminina, uma extensão mesmo do que sou.

A principal característica do meu trabalho é o romantismo, a feminilidade, a leveza e a delicadeza. Acredito que a filosofia de vida que me move e também move o trabalho de A Modista é um grande diferencial: a celebração dos sentimentos mais profundos e verdadeiros por meio do traje de noiva.

No começo, a gente atendia o público feminino em geral, mas o número de clientes aumentou enormemente até o ponto de termos que escolher no que teríamos que focar, pois não estávamos dando conta do volume de trabalho. As noivas eram as próprias clientes. Resolvemos então focar para poder melhorar também a qualidade da producão. Fazer um vestido de noiva exige um outro tipo de mão-de-obra. Os acabamentos são mais sofisticados e o tempo de dedicação é bem maior do que numa peça de dia a dia (apesar de já oferecermos várias peças bem sofisticadas quando trabalhavamos com roupas coloridas).

A verdade é que, desde que comecei a fazer vestidos de noiva, tive o desejo de aumentar o volume, pois é algo em que posso trabalhar com mais detalhes… É mais gostoso no sentido de ser uma peça com um sentido especial, que vai celebrar o amor entre duas pessoas. Tem um sentido maior e mais nobre, mais carregado de emoção e dá uma satisfação muito grande em participar deste momento. Modéstia a parte, acredito ser uma casadeira de mão cheia. Em oito anos, posso dizer que só duas noivas se separaram! Muitas voltam grávidas, com neném, com outro neném… Fico muito feliz em achar que damos sorte para nossos casais. Quero muito mesmo que todos sejam felizes e que tenham muito amor.

Não sou perfeita ainda (espero chegar lá), mas fazemos tudo com o maior carinho possível e creio que essa energia passa também para aqueles que acreditam em nosso trabalho e nos dão voto de confiança. Enfim, amo fazer parte de um momento tão importante como o casamento e ser responsável, em certo ponto, pela felicidade de um casal.

Atualmente, posso dizer que meu fazer ocupa todas as horas do meu dia. Minha dedicação é full time. Não desligo nem dormindo! Sonho com os vestidos e fico resolvendo um e outro ponto enquanto durmo. Tudo me inspira e me diverte. Posso ter idéias e resolver problemas cozinhando, andando de bicicleta ou estudando holandês. Sou uma pessoa com perfil multifacetado, me interesso absolutamente por tudo. Gosto de explorar os materiais e ver o que eles me oferecem. Transparências, leveza, fluidez, movimento… Talvez essa caracteristica tenha a ver um pouco com o meu histórico de designer.

 

 

Eu conheço a pessoa, ela me conta sua história, a história do casal e eu traduzo tudo em vestido. Penso sempre que o processo é como se fosse pintar um quadro ou escrever uma biografia...”

Quando o trabalho é sob medida, personalizado, é ainda mais interessante, pois procuro fazer a leitura e transcrição daquela pessoa que me procura. Na verdade, acredito que seja isso mesmo o que faço. Eu conheço a pessoa, ela me conta sua história, a história do casal e eu traduzo tudo em vestido. Penso sempre que o processo é como se fosse pintar um quadro ou escrever uma biografia. Preciso entender a essência daquela pessoa e transformar em imagem ou em objeto. O trabalho é de leitura e tradução de cada noiva para ajudá-la a valorizar o que ela tem de melhor e mais bonito, tanto fisicamente quanto em aspectos da personalidade. É por isso que acho que a noiva que quer fazer um vestido personalizado deve tomar muito cuidado com opniões alheias. Pois, as pessoas começam a imprimir a sua própria história na história da outra.

Acho que o trabalho que A Modista oferece é diferenciado, pois a proposta é que a roupa venha carregada de sentido e alma, tenha vida e carregue com ela sentimentos que fizeram o casal ficar junto e celebrar a união. Fico pensando em meus pais, que ainda estão casados (o retrato do casamento deles é praticamente um amuleto na loja) e em toda história que já viveram e em todas dificuldades que passaram juntos há mais de 40 anos. Muitos dos meus valores vem deles. É importante a gente se conhecer muito bem para que tenha coisas para oferecer ao outro. Pra mim, casamento não tem fórmula. Não tem que ser assim ou assado, ter rituais pré-estabelecidos. O que vale é a verdade do casal. Pode ser desde um casamento picnic no quintal a uma super cerimônia numa catedral. O que interessa são os sentimentos verdadeiros e o que move duas pessoas que querem passar a vida juntas. Acredito que a parte mais dificil está feita: se encontraram, se apaixonaram e decidiram viver e partilhar uma vida juntos. O resto é maquiagem. O resto é conosco! É valorizar a beleza e levá-la para o altar!

Estou muito feliz com o que faço, mas me acho uma insatisfeita incondicional. ;-P. Quando não é uma coisa é outra e, ao meu ver, estamos apenas começando, apesar dos oito anos da loja. Temos muitas conquistas na mão, muitos objetivos para serem alcançados ainda e é isso que me move e que me faz olhar pra frente e para o futuro. Para viver fazendo o que se gosta é preciso humildade e entrega incondicional. Sem dúvida também o que move os desejos de qualquer pessoa é determinação e muita coragem. Vai sempre haver momentos dificeis, momentos de felicidade total, enfim… Lembro sempre de um ditado zen que diz que o segredo é: ser flexível como uma árvore e balançar com o vento sem se quebrar. Na minha vida acho que tudo acontece de forma muito orgânica e não muito racional. Tudo movido muito pelo emocional.

É engraçado, porque quando estava me formando em design, eu nunca tinha pensado mesmo em trabalhar com moda ou muito menos com noivas. Mas, por um acaso, nas minhas andanças em busca de materiais e novas linguagens no centro de BH, sempre me deparava com algumas fotos de casais pintadas em pratinhos de lembrança. Nem sei se isso existe aqui em SP. Enfim, quando fui fazer meu projeto de graduação fiquei em dúvida em relação a dois temas: museu de bonecos Giramundo ou um livro sobre noivas. Acontece que esse assunto (noivas, casamento) nunca existiu na minha vida e nem na minha familia, que é super pequena, sem muitos parentes, nada ligados a formalidades em geral.

Acabei escolhendo o tema museu, mas o assunto ficou na minha cabeça e a imagens dos casais também. Passaram-se muitos e muitos anos, trabalhando como designer até surgir a oportunidade de abrir o atelier. Tudo foi muito orgânico, nem sei explicar muito bem como aconteceu. Sempre gostei de inventar uma roupa aqui, outra ali, adorava comprar roupas antigas e sempre tive o prazer de entender como foram feitas, analisar os acabamentos. Enfim, sempre adorei histórias do passado, técnicas antigas. Sou muito curiosa e tenho um prazer grande em pesquisar.

No atelier, começamos fazer algumas peças sob medida, reproduzindo modelagens que eu gostava. Um pouco como brincadeira, fazendo uma anedota à máxima nada se cria tudo se copia. O passado nos ensina muito. A técnica era mais apurada, as pessoas tinham mais tempo para se dedicar, o mundo era mais tranquilo e a vida menos corrida. Temos que aprender muito com o passado. Quando abrimos, clientes e vizinhos vinham me trazer peças antigas como presente ou nos emprestavam as peças criadas por suas bisavós, avós, mães… Foi muito, muito enriquecedor. As pessoas partilhavam experiências com o mundo das máquinas de costura, contavam histórias pessoais, era super divertido e carinhoso. 

Um dia apareceu um senhor, que nasceu e cresceu na casinha onde é a loja, e pediu para subir até o cômodo que na infância foi seu quarto. Chorou. Tudo tinha sido restaurado como na época em que as modistas eram conhecidas como estrelas. O universo da costura fazia parte da vida cotidiana das pessoas. Ganhavam-se máquinas de costura de enxoval. Todos iam À Modista ou ao Alfaiate. Roupa pronta era uma novidade… Não existia este volume de roupas industrializadas. Hoje, o processo se inverteu. Fazer roupa sob medida virou artigo de luxo pela falta de mão-de-obra e o trabalho artesanal não consegue concorrer com a massificação e a industrialização. Acho que esse fazer tende a acabar…

Eu então poderia exercer muitas profissões, pois a verdade é que sempre me interessei por assuntos diversos, que variam um pouco conforme o momento que estou vivendo. Poderia me formar em fisioterapia, quiropraxia… Sempre me interessei muito pela área de saúde, nutricionismo e gastronomia (adoro cozinhar e estar na cozinha é sempre um grande prazer), fotografia, química, perfumaria, jardinagem….

Pode parecer que sou uma pessoa confusa, mas acho que sou uma pessoa sinestésica e, tenho mesmo múltiplos interesses e acredito que este seja o diferencial em meu trabalho e na minha maneira de pensar e de viver, tudo me interessa e me emociona.
Acho que uma frase do Walt Whitman é que melhor me define: “Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim.”

 

 

 

“Para viver fazendo o que se gosta é preciso humildade e entrega incondicional. Sem dúvida também o que move os desejos de qualquer pessoa é determinação e muita coragem…” 

 

 ”Lembro sempre de um ditado zen que diz que o segredo é: ser flexível como uma árvore e balançar com o vento sem se quebrar.”

Helena Lunardelli Tati Abreu