Foto de capa - Luciana Sapia
FOTO Antonia Domingues

Sobre Luciana Sapia

Luciana se formou em Ciências Sociais pela USP, estudou pedagogia Waldorf e trabalhou com professora, contadora de histórias e atriz. Sempre usou a cabeça e o coração em seus “fazeres”. Mas quando se tornou mãe, descobriu suas mãos e passou a fazer pães, bolos e outras delícias artesanais para nutrir sua família em todos os sentidos.

14 de maio de 2010

ERA UMA VEZ

Uma menina de olhos misteriosos e falantes. Já mulher, formou-se em Ciências Sociais pela USP, pouco depois, foi estudar pedagogia Waldorf e se tornou professora e contadora de histórias. Anos se passaram e ela deu à luz à três lindos filhos: uma menina, a primogênita, um menino, o segundo e outra menina, a caçula. Mãe, fez, gerou e pariu suas crias em seu próprio ninho, digo… Casa.

A mulher possuía outros diversos dons: era artesã, cozinheira e… padeira! Seu nome é Luciana Sapia e ela é mesmo um exemplo de que é possível ser mulher, moderna, e manter vivo e presente o feminino essencial: intimamente ligado ao fazer e ao criativo.

Mas não esse feminino romântico que estamos acostumados a ouvir por aí. Mas o arquetípico, o feminino antigo, que dispõe de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora, uma geradora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior.

Quando chego em sua casa é assim: entre flores e enfeites de porta que ela mesmo faz, um de seus 3 filhos vêm junto dela abrir a porta. Sorriso sincero, um forte abraço e um cheiro delicioso no ar.

Na pequena casa de vila cor de rosa, tem sempre algo saindo do forno. E sem exageros, tudo é sempre – uma delícia! Aos recém-feitos 30 anos (!), sempre linda, ela recebe com café, bolos, sopinhas e mais recentemente a encontramos por lá, na cozinha, fazendo mais uma de suas artes com as mãos, que arrisco dizer, não poderia haver outra mais generosa para receber tudo que Luciana é : o pão.

Lú tem um ar de quem saiu dos anos 70, quer viver da sua arte, em comunidade, elevar o arquétipo do feminino banalizado pela mulher dos anos 90 e criar com a liberdade da mulher da era 2000. Tudo isso, não sei como e com qual magia, se transfere através de suas mãos para a massa e se revela quando somos servidos de um pão feito artesanalmente em sua padaria caseira.

Ela diz que não tem segredo: é o amor e a entrega com que faz seu pão. Diversas histórias já contaram sobre o encantamento do alimento que além de alimentar o corpo, alimenta a alma. É o alimento que carrega um sentimento, um sabor que desperta uma pessoa, um cheiro que recorda um tempo, uma textura que conforta. O alimento que tem alma. Como ela mesma diz : um alimento vivo!

A bíblia cita o “pão nosso de cada dia” umas 340 vezes – alimento sagrado, diário, feito pelas mulheres que cuidavam de suas famílias.

Tudo isso: feito com as mãos, uma arte, vivo, sagrado, natural, da terra, da família, alimento, saboroso, belo e cheio de histórias e fundamentos… assim é o pão da Lú e é por isso, que não poderia haver outro Fazer tão perfeito para ela.

E os pães feitos à mão por Luciana carregam histórias sobre todas essas histórias. Pura fartura de alimento para todos os sentidos.

Para se alimentar de amor.

“A parte do meu corpo que mais mudou com a gravidez foram minhas mãos – mãos maternas, mãos que tateiam o mundo buscando amor para oferecer ao filho recém chegado!”

“Esse fazer diário e constante, fazer a mesma coisa todos os dias, e procurar fazer sempre melhor é uma qualidade meditativa do meu ofício.”

Conheça a história de Luciana Sapia

Com a chegada da maternidade me dei conta das minhas mãos.

Trocando as fraldas de minha filhota, lhe acariciando… no banho, as mãos seguras amparando seu delicado corpinho, a massagem com óleo de camomila e depois as papinhas cozidas durante horas na panelinha de barro para iniciar a alimentação e ensiná-la a experimentar o mundo.
A parte do meu corpo que mais mudou com a gravidez foram minhas mãos – mãos maternas, mãos que tateiam o mundo, buscando amor para oferecer ao filho recém-chegado.

Sempre fui dona de muitas idéias, tive vontade de fazer inúmeras coisas, valia cozinhar, costurar, fazer boneca de lã, arrumar as flores num vaso bonito, pintar as paredes da casa com aquarela, ler poesia em voz alta, criar gatos de barro para ensinar as mãos do que é feito o mundo. A matéria e a alma! Permear a vida de graça, cores, sabores e saberes, ouvir histórias, dar ritmo ao corpo através da música… O tempo todo estamos recriando a vida e o motivo pelo qual estamos aqui. É no fazer que libertamos nossos processos criativos.

Foi essa sensação que experimentei quando comecei a fazer pão. Alimentar a massa com o calor das minhas mãos é uma prece diária que vai tecendo entre a bancada de madeira, a massa e o meu coração.

 

“Alimentar a massa com o calor das minhas mãos é uma prece diária que vai se tecendo entre a bancada de madeira, a massa e o meu coração.”

Misturando todos os ingredientes dentro da bacia vou recriando o mundo.

A água cálida aquece minhas mãos e com movimentos suaves vou trabalhando a massa para trazer a força vital de cada alimento ali integrado. A alquimia acontece: farinha, açucar, sal, óleo e fermento agora numa massa unida, plácida e perfumada, já pronta para descansar e crescer. E como disse certa vez um padeiro amigo meu: o pão vem trazendo o sol da manhã!

Brinco: pelas mãos do padeiro o dia começa a raiar…é hora de enrolar os pães. A massa é pesada e cada pão é enrolado com sabores especiais de castanhas, passas, grãos, raízes e o que mais quisermos criar para incrementar e saborear ainda mais nosso pãozinho integral. Forno acesso e um cheirinho gostoso de pão quentinho começa a invadir a casa convidando para um delícioso café da manhã!

Esse fazer diário e constante, fazer a mesma coisa todos os dias, e procurar fazer sempre melhor, é uma qualidade meditativa do meu ofício. Esse fazer com presença total de espírito me organiza, me integra e me faz cada vez mais valorizar o que é realmente bom.

Assim é o pão da confraria – orgânico, verdadeiro e integral.

“Nascida da cozinha da minha casa, tão viva, tão experimental, tão inteira, a padaria tem por princípio propor um novo-antigo conceito no ato de comer pão – reunir as pessoas ao redor da mesa para se satisfazerem desse alimento sagrado e ancestral que alimenta o corpo e a alma”

Nascida da cozinha da minha casa, tão viva, tão experimental, tão inteira, a padaria tem por princípio propor um novo-antigo conceito no ato de comer pão – reunir as pessoas ao redor da mesa para se satisfazerem desse alimento sagrado e ancestral que alimenta o corpo e a alma, reacendendo em cada um esse círculo humano e divino que é a confraria.

A Confraria requer o compromisso de seus confrades para poder girar.

Através de assinaturas mensais, ofereço aos confrades produtos artesanais produzidos por mim e escolhidos a dedo para compor um café da manha saboroso e saudável, são pães, manteiga, bolos, biscoitos, geléias, queijos e quitutes para fortalecer e alegrar o dia e nutrir a alma. 

Essa maneira de atuar no mundo, me permitiu resolver o dilema de muitas mães modernas: como trabalhar fora e cuidar dos meus filhos?

Antes de ser padeira, era professora em um pequeno jardim de infância, o que ganhava não era suficiente para arcar com as despesas da vida,  e não queria estar ausente da vida cotidiana de meus filhos.

Estar dentro do mercado de trabalho, em um “emprego” convencional, seguramente remunerado, me consumiria muitas horas diárias e seguramente não supriria minhas necessidades anímicas, não poderia ser tudo o que quero: ser mãe, mulher, amiga, cozinhar, pintar, plantar, dançar… ser verdadeiramente feliz.

Foi quando comecei a fazer pão. Era apenas uma maneira de incrementar a renda mensal fazendo algo que eu gosto e oferecendo alguma coisa boa para as pessoas, logo percebi que se eu realmente quisesse poderia me bancar e ir muito fundo com essa história.

Comprei o forno, ajeitei a cozinha, arrumei os pães num cesto e agora estamos aqui!  Assim, daqui, da minha casa, no aconchego do meu lar, ao lado dos meus filhos eu proponho á vc: quer um pão fresquinho?

Meus sonhos são grandes. E a cada pão concretizo e alimento um pouco de cada um deles.

“Esse fazer com presença total de espírito me organiza, me integra e me faz cada vez mais valorizar o que é realmente bom.”

Titi Vidal