Foto de capa - Maira Duarte
FOTO Gleice Bueno

Sobre Maira Duarte

Maíra é terapeuta e doula. Formada na Índia em terapia Ayurvédica, ela cuida das mãe e seus bebês desde dentro da barriga, com óleos quentes e aromáticos, banhos de ervas e
massagens. A vida estabeleu um caminho interessante para levar Maíra até onde ela está. E ter seus filhos de forma natural foi um dos passos mais importantes para chegar.

15 de janeiro de 2012

INTRODUÇÃO

Maíra Duarte tateia, cheira, sente o gosto e sabe ouvir a vida. É uma mulher que tem a coragem e a sabedoria de acolher sua intuição e usa esse sexto sentido – que talvez seja a soma dos outros – para oferecer a mulheres em gestação, parto e pós-parto, conforto e cura para o corpo e para alma. 

Nossos caminhos se cruzaram enquanto me preparava para meu primeiro parto, num encontro de gestantes. Mal sabia o que era uma doula (www.doulas.com.br), mas ela despertou algo forte e sem nome em mim. Díficil seria não deixar-se encantar por aquele ser vibrante, com olhos de mar, tão transparentes que permitem a gente enxergar a alma sem qualquer esforço. Por indicação da obstetra, cheguei a convidar outra doula para me acompanhar. Passei meses estabelecendo um vínculo com essa pessoa, mas poucas semanas antes do nascimento da minha filha, os sonhos recorrentes com a Maíra não permitiram que eu negasse o que minha intuição me mostrou naquele primeiro instante: era Maíra que estaria comigo. 

Hoje posso dizer, e digo sempre que posso, que muitas coisas poderiam ter sido diferentes no meu parto, mas nunca abriria mão de tê-la por perto. O toque de Maíra ultrapassa os limites táteis da pele e dos órgãos que massageia, é capaz de dissolver medos, ansiedades, promover encontros e reencontros. Percebe e trata cada corpo de forma singular, porque cada um tem a sua própria história. Terapeuta e doula, ela emprega seu saber na preparação e no uso de óleos quentes, aromáticos, banhos de ervas e verdadeiras poções mágicas. É alguém que traz os sentidos à flor da pele e exala no sorriso fácil a alegria de viver fazendo o que dá prazer: entregar-se ao cuidado com mães e bebês ainda na barriga. 

Ela soube reconhecer esse caminho deixando seu corpo ser levado e lavado pelas águas – do mar da Bahia, do Ganges e de seus dois partos. Formada na Índia em terapia ayurvédica, um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade, foi o nascimento de seus dois filhos que a fez escolher de vez o universo feminino para trabalhar. 

Ao experimentar no próprio corpo a força de gerar e parir de forma natural, se abriu ainda mais à percepção sensorial e resolveu devolver à vida aquilo que aprendeu com ela, ajudando outras mulheres a dar à luz seus filhos. 

Conheça a história de Maíra, contada por ela mesma, e perceba que a grande sabedoria é sentir plenamente.

“Resolvi viajar o sul da Bahia pra ver o mar, meditar e pensar na vida. Fui para um vilarejo sem energia elétrica, onde a gente aprende a enxergar no escuro, tomar banho frio e ler à luz de velas.”

“Em uma camiseta escrevi: “Massagem! Fale comigo”. Pedi umas dicas básicas para uma amiga massagista, relembrei o que já sabia e confiei nos meus sentidos.”

Conheça a história de Maira Duarte

Dance pelo rim, me dizia um professor de dança. E eu dançava, levada por aquela vibração específica. Ele propunha exercícios e a gente realmente sentia o pulsar singular de cada órgão. Achava aquilo incrível e, naquela  época, comecei a entender algumas coisas a respeito da cura.  Senti no meu próprio corpo como caminha a vitalidade e como ela pode se acumular em órgãos, articulações e espaços internos. Havia me separado a pouco tempo e deixado meus três empregos. Estava fechando muitos ciclos e procurando entender como entraria no próximo. Resolvi viajar o sul da Bahia pra ver o mar, meditar e pensar na vida. Fui para um vilarejo sem energia elétrica chamado Caraíva, onde a gente aprende a enxergar no escuro, tomar banho frio e ler à luz de velas. Por lá fui ficando, até que o dinheiro acabou. Um amigo que voltaria a São Paulo me emprestou o pouco que tinha. Eu sentia que ainda não devia voltar. Fiquei, mesmo sem saber como faria para me manter. Tive a idéia de vender salada de frutas na praia. Comprei frutas frescas, coloquei-as na bancada da cozinha e me recolhi. Na manhã seguinte, vi pedaços de mamão esmagados pelo chão de areia, entre pegadas redondas. O caseiro me contou que, durante a madrugada, um jegue entrou na cozinha e comeu as frutas. Caramba!, pensei. “Esse animal comeu todo meu capital inicial!!” Senti raiva e medo. Estava sem dinheiro nem para voltar e meu plano não tinha dado certo. “O que eu faço agora?!“ O dono da casa em que eu me hospedava disse: “quando eu não sei o que fazer, desço o rio”. Peguei uma bóia bem grande e fui para o Rio Caraíva. Correnteza me levando até o mar. Olhando o céu, chorando, limpando o coração, deixei o corpo seguir no curso do rio. E entreguei para o mar os meus medos. No caminho fui fazendo uma retrospectiva mental. Lembrei das coisas fundamentais, das pessoas fundamentais, de minhas aulas de dança e das massagens que lá aprendi.

Com os sentidos à flor da pele e muito amor circulando, logo vi que algo estava diferente. Gil e eu já não seríamos apenas dois. Nosso primeiro filho nasceu de um parto natural desafiante e fortalecedor. Fiquei impressionada com o potencial terapêutico concentrado em um (simples?) evento fisiológico.

Chegando na praia me veio uma ideia. Em uma camiseta escrevi: “Massagem! Fale comigo” e desenhei uma mão aberta, com uma espiral no centro. Pedi umas dicas básicas para uma amiga massagista que estava por lá, relembrei o que já sabia e confiei nos meus sentidos. Saí pra andar na praia vestindo a camiseta. Logo uma pessoa se aproximou interessada, depois outra e outra… Foi um mês de bastante trabalho. Voltei com dinheiro no bolso e sabendo o primeiro passo a dar no novo ciclo: estudar Ayurveda*.
Praticava meditação diariamente e, logo que cheguei a Sampa, tive uma forte intuição por duas vezes durante a meditação: procurar o Kehl (um amigo querido). Na primeira vez não dei bola. Na segunda achei bom ouvir. Marcamos um café e, nesse dia, Kehl me apresentou ao Gil, seu filho, terapeuta corporal, com quem eu logo firmei parceria de trabalho e de vida. Nós nos unimos a uma homeopata ayurvédica para trabalhar, enquanto eu iniciava os estudos em ayurveda. O Gil já havia se formado e nosso trio deu muito certo. Ia observando o trabalho deles, praticando os procedimentos e estudando. Assim nasceu a terapeuta em mim.

 

“Um jegue entrou na cozinha e comeu as frutas. Caramba!, pensei. “Esse animal comeu todo meu capital inicial!!” Estava sem dinheiro nem para voltar e meu plano não tinha dado certo. “O que eu faço agora?!“

Com os sentidos à flor da pele e muito amor circulando, logo vi que algo estava diferente. Gil e eu já não seríamos apenas dois. Nosso primeiro filho nasceu de um parto natural desafiante e fortalecedor. Fiquei impressionada com o potencial terapêutico concentrado em um (simples?) evento fisiológico. Senti gratidão pelas pessoas que me auxiliaram a vencer o medo de parir, que era o maior da minha vida. E dessa gratidão veio a vontade de fazer o mesmo com outras mulheres. Mas ainda não me sentia segura pra acompanhar partos e continuei trabalhando com ayurveda para todos. Tive o segundo filho, num parto natural rápido, intenso e prazeroso. Esse parto abriu uma porta, me trouxe firmeza e alguma compreensão a respeito da entrega. Fiz o curso de doula e de educadora perinatal. Logo em seguida comecei a acompanhar partos. Passei a atender apenas gestantes e mulheres que acabaram de ter seus filhos. Estou realizada nesse caminho há alguns anos.

Acompanho toda a gestação em um pré-natal terapêutico, paralelo ao médico, com massagens, conversas e orientações ayurvédicas. Procuro criar um espaço aberto para a gestante se informar, trabalhar os medos, se preparar física e emocionalmente para o parto e o pós parto. Esse espaço é também para os companheiros (ou companheiras em alguns casos) encontrarem seu lugar nisso tudo. Assim, aprendem a cuidar das mulheres e de si, entendendo melhor esse processo do qual por décadas foram excluídos.
As massagens são momentos de forte conexão entre o bebê e a mãe. Sinto-me muito ligada a eles particularmente nessa hora. Massagear um bebê dentro da barriga de sua mãe durante vários meses estabelece um vínculo profundo. E assim vamos juntos trilhando um caminho para aquela gestação. Isso pode envolver muitas conversas, banhos terapêuticos, orientações alimentares e de práticas respiratórias. Cada gravidez traz uma demanda que a gente vai sentindo enquanto a gestação flui.
Olhando de fora, parece que foi de uma hora pra outra que tudo aconteceu. Fiz uma formação de dez dias, virei doula e imediatamente comecei a trabalhar muito. Dia desses uma parteira amiga minha falou: Maíra, sua carreira como doula foi meteórica! Sei que ela não conhece toda a história, a peleja sensorial desse processo formativo.

Desde os tempos do tablado empoeirado das aulas de dança, minha formação estava acontecendo. Precisei de um jegue faminto que me empurrasse pra vida e de muita cara-de-pau pra sair vendendo massagem na praia. Precisei ir pra Índia estudar, enxergar o diferente como um caminho e sair viajando sem rumo, para me abrir pra voz da intuição.

Precisei parir duas vezes, porque uma não foi o suficiente para confiar. Ir tateando, cheirando, sentindo o gosto de cada uma dessas experiências, para só assim,  anos depois, começar a entender em que tom soa minha canção. Não foi meteórico. Demorou. Foi no tempo necessário. E foi bom.
Às vezes, acompanhando partos, me lembro daquela situação em que entreguei meus medos para o mar. Parindo é meio isso que a gente precisa fazer. Deixar as ondas das contrações virem e entregar o corpo pra elas. A solução sempre se apresenta em seguida, porque entrega é abertura e quando nos abrimos, tudo o que precisamos chega até nós. Inclusive os bebês!

“As massagens são momentos de forte conexão entre o bebê e a mãe. Sinto-me muito ligada a eles nessa hora. Massagear um bebê dentro da barriga de sua mãe estabelece um vínculo profundo.”

Juliana Porto Marina Athanas