Foto de capa - Odeir Santos
FOTO Gleice Bueno

Sobre Odeir Santos

Odeir Santos é arte-educador, artista Brincante. Um homem que dança, toca tambor e usa seu ritmo, suas mãos, memória e voz como instrumentos do seu fazer: preservar a saúde da memória do povo. Saiu da escola no colegial, decepcionado e envergonhado. Foi engraxate, office-boy, vendedor de sapatos, de consórcio, auxiliar administrativo e tantas outras coisas.
Mas, antes disso foi uma criança feliz, que aprendeu em casa e nos terreiros, o orgulho para enfrentar o preconceito. Talvez por conta disso decidiu voltar à escola para compartilhar as histórias que aprendeu com os mestres do povo, viajando pelo país, sobre as riquezas da cultura brasileira. É o pai amoroso de dois meninos, Naruê e Iatã, seu legado para o mundo. Sua bandeira é a das diferenças. Ele crê nelas para diminuir desigualdades. Usa a arte e a educação como ferramentas para construir pontes entre tempos e pessoas.

16 de dezembro de 2014

Gleice Bueno

“E o futuro nas mãos do menino

Batucando por fé e destino…”

Milton Nascimento

Odeir Santos é arte-educador, artista brincante. Um homem que dança, toca tambor e usa seu ritmo, suas mãos, memória e voz como instrumentos do seu fazer: preservar a saúde da memória do povo. Saiu da escola no colegial, decepcionado e envergonhado. Foi engraxate, office-boy, vendedor de sapatos, de consórcio, auxiliar administrativo e tantas outras coisas. 

Mas, antes, foi uma criança feliz, que descobriu em casa e nos terreiros o orgulho para enfrentar o preconceito. Talvez por conta disso decidiu voltar à escola para compartilhar as histórias que aprendeu com os mestres do povo, viajando pelo país, sobre as riquezas da cultura brasileira. É o pai amoroso de dois meninos, Naruê e Iatã, seu legado para o mundo. Sua bandeira é a das diferenças. Ele crê nelas para diminuir desigualdades. Usa a arte e a educação como ferramentas para construir pontes entre tempos e pessoas.

A história dele me chegou como um presente. Ao conhecê-lo, seus tambores tocaram em tudo o que tem resistido em mim durante a vida. Testemunhar aquele homem negro, vestido inteiro de branco, à frente de crianças com coroas de reis, mulheres tocando caixas e homens carregando o mastro do Divino Espírito Santo – numa escola privada paulistana de pedagogia nascida estrangeira – encheu-me de um sentimento difícil de explicar.

Era alegria, claro, de ouvir os sons que menina me faziam correr à varanda da minha avó, numa cidade tão pequenina do Espírito Santo. E ver aquele mundão de contraste entre roupas brancas e peles negras, a beleza das bandeiras dos santos de devoção e o colorido das flores carregados com fervor. Era aquela euforia talvez de quando “o congo” chegava à igreja. Eles fechavam as portas, mas todos estavam do lado de fora dançando, juntos. Era também a saudade de ouvir os cantos de louvores ao Menino, anunciando melhores dias, na casa do avô em Minas Gerais. Mas, era mais que isso. Era o sentimento de pertencer de novo e um orgulho danado por um cara que eu só havia conhecido dias antes.

É que eu vi o arquétipo. Vi alguém que prefere acreditar mais nos sonhos do que na miséria. Um homem cuja força vem do que poderia ser considerado fraqueza e que, ali naquela festa, representava a concretização de desejos e valores que tantos de nós temos sido ensinados a encarar como utopia. Tristemente, ironicamente, perdi as imagens que fiz daquele dia de glória que tanto me pareceu um sonho. Desculpe, Odeir. Mas, o vídeo pode mostrar que foi real. 

Não estou certa que ele tenha a dimensão do trabalho que vem fazendo, enquanto conta histórias de heróis pouco conhecidos da nossa História, brinca e mostra às crianças como confeccionar e tocar instrumentos. Mas, ouvir que meninos – nascidos em condições tão diferentes de seu professor – gostariam de pintar o corpo de preto, vê-los dançar e representar tão lindamente as tradições brasileiras, me fazem cumprimentar Odeir e apresentá-lo como mestre. Pode ficar tranquila, Dona Cida, ele aprendeu direitinho os seus ensinamentos.

“Juntei a música e a educação assim que me deram uma chance e comecei a dar aulas de percussão e brincadeiras para as crianças em diferentes espaços: salão de  condomínio, casa de amigos, na rua, casa de cultura e etc. No início, só ganhava o que aprendia com as crianças mesmo.”

“Mergulhei no mundo dos conhecimentos superiores de Rudolf Steiner e participei da formação em Pedagogia Curativa da Parsifal. Consegui ser contratado lá para pagar o curso.”

Conheça a história de Odeir Santos

Passei por momentos difíceis durante a fase de escola, os professores eram muito duros. Ligavam-me a estereótipos ruins e me classificavam como uma criança difícil… “Endiabrado”, diziam cada vez que me chamavam à diretoria. Consegui terminar o colegial contando com a ajuda de uma diretora que aceitou a minha rematrícula como um favor, fazendo eu jurar que não iria aprontar nada. Saí da escola no fim do terceiro colegial, com uma impressão ainda mais terrível: percebi que os professores eram despreparados, ganhavam mau e não tinham nenhum amor pelo que faziam. Ou melhor, faziam o que amavam por obrigação, sem nenhum auxílio ou preparo.

Mas, tive a sorte de encontrar a arte em meu caminho na busca por trabalho. Ela chegou até mim pelas mãos de um bonequeiro mamulengueiro… Valdeck Guaranhun é seu nome. Um homem simples, que me encantou por ser culto e sábio das histórias do povo, conhecedor dos lugares, datas, contos e causos. Assisti sua apresentação pela primeira vez numa festa no sítio Mataganza, um templo de Umbanda onde também passei bons e grandes momentos de aprendizagem. 

Aprendi a tocar atabaque quando era criança, depois não consegui mais parar de batucar. Eu toco mesmo sem saber contar ritmo, toco por imitação, carinho e amor ao tambor. Ensino assim também, por imitação, e funciona muito bem com as crianças. No meu caminho encontrei o (Instituto) Brincante e lá aprendi muito, até a contar.

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Teatro Escola Brincante e a pedagogia de Antonio Nóbrega, que ensina o “fazer” através do “brincar”, são grandes influências na minha vida. Lá, encontrei uma biblioteca para a pesquisa teórica. Obtive indicações de bons livros, autores e pude perceber o quanto era rica a cultura popular brasileira. Foi então que nasceu o meu desejo de ser educador. Mas, um “educador brincante”, que através das danças e dos ritmos tradicionais brasileiros pode falar sobre a história do Brasil que não se ensina nos livros. Foi assim que eu mesmo aprendi. Ao participar da formação de educadores, tive contato com as danças populares de diferentes regiões. Comecei a pesquisar, viajar, fazer cursos, buscar memórias. Foi quando comecei a aprender sobre a história real do meu país!

Juntei a música e a educação assim que me deram uma chance e comecei a dar aulas de percussão e brincadeiras para as crianças em diferentes espaços: salão de  condomínio, casa de amigos, na rua, casa de cultura e etc. No início, só ganhava o que aprendia com as crianças mesmo. 

Depois, veio a Parsifal - uma instituição de educação terapêutica antroposófica. Consegui um estágio como auxiliar de música com a terapeuta Ines Nigros, uma grande profissional, amiga e mestra. O trabalho era criar ritmos e interagir com os diferentes alunos-pacientes que ela atendia. Mergulhei no mundo dos conhecimentos superiores de Rudolf Steiner e participei da formação em Pedagogia Curativa da Parsifal. Consegui ser contratado lá para pagar o curso. Trabalhei por cinco queridos anos e aprendi muito sobre musicoterapia, trabalho em madeira, tecelagem, aquarela, argila, etc. Contei histórias, cantamos, viajamos, dançamos…. Até que chegou o  momento de partir.

“Durante meu tempo de estudante, a escola foi sempre um fardo. Queria mesmo era poder trabalhar. Foi só depois de trabalhar em diferentes lugares, entre eles escolas Waldorf, que percebi o quanto a educação pode ser boa, bela e verdadeira.”

Fui convidado a participar de um projeto extracurricular chamado Tardes Criativas, que acontece no Colégio Waldorf Micael. Minha oficina é de construção de instrumentos musicais de cultura popular, em parceria com a querida amiga flautista e talentosa educadora Julia Donley. Também trabalho ritmos da cultura popular brasileira com as crianças de 7 a 10 anos, utilizado instrumentos de percussão. Aprendemos cantigas e brincadeiras também.            

Não foi nada fácil conseguir essa oportunidade sem ter uma formação específica para trabalhar com arte e cultura popular. A falta de material também foi difícil. Não havia muitos livros, informações ou cursos que me ajudassem a ter conhecimento sobre a cultura popular brasileira e como trabalhar estes temas com as crianças. 

O interesse pelo mundo teórico, aliás, demorou muito a chegar para mim. Minha mãe foi tirada da escola por seus pais e começou a trabalhar com 8 anos de idade em uma fábrica de cortar borrachas, para as crianças que estavam na escola onde ela não podia estar. Ela me ensinou que trabalhar honestamente é tudo o que podemos ambicionar. Durante meu tempo de estudante, a escola foi sempre um fardo. Queria mesmo era poder trabalhar. Foi só depois de trabalhar em diferentes lugares, entre eles escolas Waldorf, que percebi o quanto a educação pode ser boa, bela e verdadeira.

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Dentro de casa, o estudo era pouco, mas a alegria de viver era bem grande. Todos os meus dançam: pais, tios, irmão e primos. A dança para mim é vida, trabalho e religião. Aprendi desde cedo as danças do Orixás, imitando os mais velhos, fazendo graça. Quando cresci percebi o quanto tudo era sério e profundo! Nunca deixei de dançar para o santo. Acredito que cada um de nós carrega sua própria dança e também seu Orixá. É ele quem dança em nós quando dançamos felizes. 

Foi pela religião que comecei a tocar atabaque, aos 9 anos. Fui levado ao Candomblé de Oxumaré pelas mãos de minha mãe, Dona Cida. De lá, só saí quando a prefeitura despejou o terreiro da praça em frente à rua da feira, onde se acumulava uma pequena favela, no Jardim Sao Luís, Zona Sul de Sao Paulo, nos anos 90.

“Minha mãe foi tirada da escola por seus pais e começou a trabalhar com 8 anos de idade em uma fábrica de cortar borrachas, para as crianças que estavam na escola onde ela não podia estar. Ela me ensinou que trabalhar honestamente é tudo podemos ambicionar.”

O tambor já fazia parte da minha respiração quando encontrei o Templo Guaracy do Brasil (TGB). Cheguei lá com 11 anos. Permaneci no terreiro por muito tempo. Recebi lá o título de Alabê e aprendi o quanto o tambor era sagrado. Passei a pesquisar mais sobre os tambores e descobri que nossa cultura popular é repleta deles e de ritmos vindos da África, dos indígenas brasileiros, europeus… Essa curiosidade me levou a estudar percussão em diferentes lugares, com vários mestres. Sou apaixonado por tambores e ritmos. Fico maravilhado ao perceber o que o ritmo de um tambor possibilita ao corpo quando percutidos com baqueta ou tocados com as mãos. 

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Minha raiz africana eu descobri antes, bem cedo na vida. Na escola, embora a grande maioria fosse negra, nos diziam apenas que éramos descendentes de escravos. Os livros nos mostravam aquelas imagens horríveis dos negros sendo chicoteados no pelourinho. O rosto de Zumbi dos Palmares mal desenhado nos livros era a única referência de dignidade. Mesmo assim era um breve capítulo que contava essa história. Isso me envergonhava e me afastava do ambiente escolar e das pessoas de lá.

Em contraponto, eu escutava nos pontos e nas rezas, mitos e lendas sobre deuses, heróis e heroínas negros. Sabia que eu descendia de seres humanos que – na condição de escravos – se misturaram, construíram e povoaram o Brasil. Esta informação vinha de dentro da família. O chão da minha casa foi sempre a base para mim.

Anos depois, quando comecei a trabalhar em escolas, descobri que poucas pessoas no ambiente pedagógico já ouviram falar sobre a rainha NzingaGalanga ReiChico da MatildeJoão CândidoBesouro Preto, entre outros grandes mestres. Decidi então dividir o que eu sabia. Hoje, uso as danças que aprendi, os toques que eu sei e as histórias que ouvi para criar espaço e contar sobre estes grande mestres, seus saberes e suas histórias. Sempre que consigo esse espaço, falo com orgulho sobre o que venho aprendendo e estudando sobre a matriz africana da nossa cultura.

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“Dentro de casa, o estudo era pouco, mas a alegria de viver era bem grande. Todos os meus dançam: pais, tios, irmão e primos. A dança para mim é vida, trabalho e religião.”

Quando se é negro na nossa sociedade, sem estudo, sem inspirações de heróis ou mitos, a gente se identifica com o quê? É terrível para a maioria. Comigo foi diferente, pois pelo envolvimento com a religião, tive auto-estima, orgulho e amor pela cultura africana. Quando era bem pequeno, ouvi pela primeira vez a história de besouro Mangangá – meu maior herói – numa roda de capoeira. Meus tios vestiam calça boca-de-sino, cabelo black-power e tinham um grupo de samba-de-raiz. Cresci num ambiente de negro em família. Fora de casa, mesmo criança, pude enfrentar preconceito com orgulho. 

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Quando adulto, minhas raízes foram se fortalecendo, o trabalho defasado da escola foi completado pelo contato com mestres populares que ouvi, as rodas de capoeira, grupos como bloco afro Ilê Aiyê, bando de teatro Olodum, casa de cultura nordestina, os Pais e Mães de Santo com quem toquei, pelo Instituto Brincante, livros do Reginaldo Prandi e Pierre Verger (fluxos e refluxos).

Como educador, percebi que são pouquíssimas crianças negras no ambiente das escolas Waldorf privadas. São poucas também as crianças que se reconhecem como mestiços, que se identificam com a cultura africana ou indígena. Muito disso porque a propagação e divulgação da cultura afro-brasileira ainda é desigual como matéria nos currículos das escolas no Brasil. Somente com a recente aprovação da Lei 10.639 é que estamos produzindo material para divulgar a nossa própria cultura, afro-brasileira.

Mesmo assim, consegui espaço dentro de escolas Waldorf, que tem origem Suíça. Foram elas que me deram uma oportunidade para falar sobre as danças dos Orixás, dos cantos da cultura popular afro-brasileira, tocar atabaque, jogar capoeira, brincar congada, moçambique de bastão, reizado. Danças e brincadeiras brasileiras muitas vezes distantes das realidades das escolas daqui.

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Admiro muito a escola Waldorf que se desenvolve hoje no Brasil. Educadores como Ute Craemer, por exemplo, que buscam dentro dessa pedagogia um caminho para a valorização da cultura popular nacional e tem caminhado para inspirar e construir verdadeiras escolas livres brasileiras. Imagino Steiner feliz na Aruanda junto a Ogum, Sofia e Cristo Sol. 

Um exemplo concreto desse interesse e aproximação foi a festa do Divino Espírito Santo, realizada este ano em escolas Waldorf tradicionais de São Paulo. Uma festa mestiça, que chegou com os primeiros portugueses e açorianos e foi absorvida pelos negros no tempo em que aprenderam a adorar os santos portugueses que viajaram com eles nas caravelas. Até hoje, a festa do Divino permanece organizada e realizada por familiares tradicionais, associações culturais, diferentes grupos populares ou religiosos, que custeiam a festa e não deixam a tradição morrer. A celebração tem por princípio o caráter comunitário.

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Há cinco anos, participo como visitante da tradicional festa junina da escola Rudolf Steiner e sempre pensei que poderia haver mais envolvimento da comunidade escolar, de maneira que todos produzissem e fossem participantes da festa, como é feito nas comunidades no interior do Brasil. Em 2014, devido à Copa do Mundo, o calendário escolar foi modificado, transferindo assim a data da festa junina para o período de Pentecostes, segundo o calendário cristão das épocas culturais. 

Coincidência ou não, por meio de pequenos trabalhos na escola, os professores ficaram sabendo que eu poderia ajudar no processo de organização da festa e dar as aulas de dança e cultura popular. O convite aceitei bem rápido por alguns motivos: eu sabia que ali haveria abertura para acolher as danças tradicionais e que eu poderia falar para um número relevante de pessoas sobre a cultura afro-brasileira “através” da cultura popular brasileira. São a mesma cultura, claro, porém a propagação acontece de maneira desigual.

Apostei nas escolas Waldorf como parceiras para meu trabalho de divulgação e arte-educador, que tem o interesse de resgatar e compartilhar em ambientes pedagógicos – por meio das artes populares – a importância da cultura popular brasileira e afro-brasileira no currículo escolar. A contrapartida veio através do envolvimento da comunidade escolar. Todos colaboraram de maneira ativa na festa, se apresentando ou sendo representado por membros dos mais diferentes setores da escola.

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Este envolvimento já existe como tradição nessas escolas, porém desta vez a nossa cultura popular esteve na festa como o centro da atenção de todos. Havia diferentes bandeiras em homenagem ao Divino e foram representadas por símbolos de diferentes culturas, expressos pela confecção e entendimento de cada família sobre o que é o Divino para eles. Este é também um dos princípios da festa do Divino, que o mito de pentecostes retrata tão bem, nos levando a pensar sobre o entendimento e aceitação das diferentes culturas do mundo.

Sou pai e gostaria de deixar esse legado para meus filhos e para o mundo. Quero que eles levem para os filhos deles a bandeira da admiração por todos que são diferentes. Só podemos aprender com quem é diferente. Quero que meus filhos toquem tambor para o mundo todo ouvir o Brasil e que aprendam com todo o mundo as danças e temperos de outros tempos e lugares. Sonho que as escolas sejam prioridade no mundo todo, abertas e livres para os curiosos em qualquer idade. Que eles possam chegar e trazer algo de si para o ambiente das crianças e levar das crianças algo que já sabiam ou que aprenderam com a cozinheira, o porteiro ou o professor.

A paternidade, aliás, tem me levado a pesquisar sobre brinquedos populares feitos a mão. Escolho brinquedos que facilitam processos de aprendizagem, que desenvolvem a curiosidade e o interesse pelo mundo. Procuro visitar pessoas que sejam referências para os meus filhos. Vou a lugares de crianças, mergulho no mundo dos meninos novamente. 

Eu fui uma criança feliz. Aprendi a brincar e fui trabalhar brincando. Claro que me orgulho muito de ter feito um monte de coisas boas na vida com o trabalho. Fui vendedor de amendoim, engraxate, ajudante de feirante, pegador de bolinhas de tênis , office-boy, vendedor de sapatos, vendedor de consórcio, auxiliar administrativo, de telemarketing e de estoque, etc. Mas, uma preta velha me disse certa vez: siga no caminho das crianças meu filho. E um Griot me disse uma outra vez: conte histórias africanas para crianças, pois elas vão mudar o mundo.

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Assim, sou um homem que dança, toca de tambor e ama seus filhos Naruê e Iatã. Sou um brasileiro esperançoso, encantado com as praias e as cirandas de Lia de Itamaracá, onde o jogo de capoeira é religião. Adoro viajar, apresentar o Brasil ao mundo. Sonhador como eu não acredita na fome nem na miséria.  Acredita antes na mistura de sangue do povo brasileiro. Meu corpo, ritmo, minhas mãos, memória e voz são as ferramentas do meu fazer. O saber popular, as memórias, as histórias, as origens do povo brasileiro são o fundamento maior do meu trabalho.

Quero com ele contribuir para a arte a cultura do Brasil. Poder levar às pessoas histórias que ouvi dos mais velhos, mestres do povo, homens e mulheres de “raiz… gente”, que de muito longe nos influenciam e fazem a cultura viver para que o povo simples não se esqueça de ser feliz. São as danças e cânticos dos festejos populares que movimentam o Brasil. Depois que são recriadas por artistas da grande mídia, ganham maior visibilidade e se tornam moda. 

A cultura é viva e quem a faz pulsar são os mestres que criam bonecos, brincam de Boi, passos de maracatu, frevo, toques de tantas pontas no bastão de moçambique, ladainhas de capoeira, pulos com as gungas da congada, cirandas praieiras e sapateados da catira, umbigadas do jongueiro. Dançam até que o maracá caia pelas mãos… Então, entregam o patangome nas mãos daqueles que podem continuar e se encantam, viram estrela… Eu aprendo e levo comigo o que vejo tentando ser o mais fiel possível, recrio o brinquedos nas escolas, compartilho o que aprendi com crianças e educadores.  

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A essência de tudo está no amor! Não é assim? Eu amo meu fazer porque ele é tão importante quanto o de um médico: eu pesquiso sobre a saúde da memória do povo. Levo até as crianças as danças, os ritmos, as cantigas, os brinquedos que construímos juntos, assim como as brincadeiras. A sabedoria popular é como vitamina para alma. Amo o que faço, porque faço igual a “limpeza de criança”, no capricho! Se não deu para ficar melhor é porque não deu mesmo. Mas um dia vou aprender… 

Eu me entrego ao que eu faço por inteiro. Amo, porque resgato as memórias da minha mãe, junto tudo e levo pra escola… Presto uma homenagem para a menina da fábrica de borracha. Às vezes, passo lá na casa dela e conto que a aula da brincadeira que ela me ensinou não deu certo. Ninguém achou graça. Ela dá risada…. E me pergunta se eu fiz direitinho como ela me ensinou.

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“Cresci meio sozinho no mundo, encontrei gente boa no caminho. Aprendi a ser filho carinhoso. Hoje trabalho e aprendo pra ser Pai bem Amoroso. 

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Aprendi a tocar atabaque quando era criança, depois não consegui mais parar de batucar.

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 Eu amo meu fazer porque ele é tão importante quanto o de um médico: eu pesquiso sobre a saúde da memória do meu povo.

Sole Yaya