Foto de capa - Pedro Fonseca
FOTO Gleice Bueno

Sobre Pedro Fonseca

Pedro Fonseca, pai de João, Irene e Teresa. Marido de Lua. Filho de Marinês e Homero. Recifense que vive em São Paulo – mas também já escolheu Barcelona, Vitória, Brasília, Rio de Janeiro e não se apega muito a esse negócio de raiz (exceto macaxeira). Que tenta se aperfeiçoar profissionalmente construindo relações com pessoas que admira. Que criou, além da Loja de Histórias, o blog Do Seu Pai, o Me Convida, o A Olho Nu, que faz parte do time que realiza o Prêmio Trip Transformadores, que não desiste de cantar. Que jamais passaria a vida fazendo uma única coisa. Que jamais vai chegar onde sempre sonhou porque não sonha com isso. Que ama gente. Que ama brincar. E por isso, hoje, pode dizer que ama o que faz.

  • http://www.pedrinhofonseca.com/

2 de fevereiro de 2015

Dani Scartezini

“Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo… No tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido” - Chico Buarque

Pedrinho é daqueles caras que todo mundo queria como amigo. Pedrinho, porque basta um minuto de conversa para o sorriso se abrir (o coração e o sagrado, também). Se você acompanha algum de seus projetos, tenho certeza, sente-se à vontade, ou até íntimo, para chamá-lo de Pedrinho. É homem corajoso. Não só pela trajetória de vida, mas principalmente, por sua postura diante da vida. Ele gosta de gente. Mesmo. Mas gostar é pouco. Ele acredita, confia e se entrega.

Eu fui (sou!) umas dessas fãs de seu blog, o Do Seu Pai. Lia seus textos e acompanhava o crescimento dos filhos e de suas ideias como pai, participando, torcendo e me afeiçoando como se os conhecesse. Sentia genuinamente essa vontade de ser amiga dele e de sua família.

Foi então que ele criou o Me Convidae eu, é claro, o convidei. Para minha surpresa, num sábado ensolarado, em pleno aniversário de dois anos do meu filho, ele apareceu acompanhado de Lua, sua esposa, e dos filhos João, Irene e a pequena Teresa. Que presente! Aquela família que eu amava antes de conhecer, celebrando e vibrando esse dia junto da minha família, como se fôssemos amigos de longa data, como se “conhecer” alguém, realmente fosse feito de outras coisas que vão além do protocolo: “oi, como você chama?” e a inevitável “o que você faz?”

Para ele, o encontro é o que importa. Talvez ele não saiba, mas me ensinou a partir desse nosso encontro. Pedrinho, gratidão! Naquele dia, e em todos os outros que estivemos juntos, reafirmo em mim a vontade e a coragem de continuar gostando de gente e permitindo a beleza do encontro, sem medo. Sim, se trata da arte do encontro, mesmo. E como deixá-lo acontecer sem confiança e entrega? 

Naquele dia, confirmei que quando temos essa verdade e amor no coração, só o bem entra pela porta de nossas casas. Na real, conviver é um mero detalhe. O que importa é a essência. Ou a criança? Que sejamos mais João e Maria, essas crianças que só querem se divertir, se gostar, brincar de princesa e castelos – sem maldade. 

A história do Pedrinho é sobre querer ser essa gente boa que está aí. Tanto, que escolheu conviver, criar e estar disponível para as pessoas, seja escrevendo, fotografando, pensando e revelando o que esse querer bem vê, sente e expressa. Sorte a nossa que podemos nos inspirar, nos emocionar e nos reconhecer nos tantos fazeres de Pedro. 

Gira, gira, brinca… entra nessa roda e sente o vento bater no rosto.

E aos 33 anos, com a chegada do meu primeiro filho, abri o olhos, acordei de uma noite longa e mal dormida. Saí da caixa, desconjuntado, decidi brincar do lado de lá, com os outros.

João, nosso primeiro filho, veio sem que planejássemos. Alegria sem planejamento é felicidade. Aquele cara transformou minha vida em instantes.

Conheça a história de Pedro Fonseca

A vida inteira me puseram em caixas. Como um boneco de madeira e pano velho, um Pinóquio – Pinóquio, não, que ele mente e o nariz cresce. Um arlequim desengonçado qualquer, facilmente dobrável, encaixotado para participar apenas das brincadeiras menos divertidas. Via os outros brincando de coisas fantásticas e eu ali, condenado a uma caixa onde lia-se, em letras garrafais, CAIXA. Havia escolhido ser publicitário. No meio do curso, já trabalhava em uma agência, ganhava um dinheirinho que bancava minha moradia solitária e achava isso uma boa ideia. Quanto mais novo, mas a gente acha que tem boas ideias. Engraçado. O tempo foi passando e, tecnicamente, aprendi a ser publicitário. Criava coisas. Campanhas. Peças publicitárias. Comerciais, anúncio, outdoors. A profissão dá dinheiro e ilusão. Acreditei nos dois. E aos 33 anos, com a chegada do meu primeiro filho, abri o olhos, acordei de uma noite longa e mal dormida. Saí da caixa, desconjuntado, decidi brincar do lado de lá, com os outros. Era bem mais divertido. Ser publicitário não me fazia sentir útil em nada. Nada.

Diante das grandes responsabilidades, o que um cara corajoso – como eu – faz? Chora de medo, de insegurança. Mas aí já não era mais eu. Éramos nós.

João, nosso primeiro filho, veio sem que planejássemos. Alegria sem planejamento é felicidade. Aquele cara transformou minha vida em instantes. Uma sucessão de instantes inesquecíveis, momentos onde me vi, finalmente, com uma responsabilidade gigantesca. Diante das grandes responsabilidades, o que um cara corajoso – como eu – faz? Chora de medo, de insegurança. Mas aí já não era mais eu. Éramos nós. Lua, minha esposa. João, meu filho. E uma cidade nova, São Paulo, para a gente desbravar. Publicitário. Redator. A chegada de João me fez pensar numa questão futura.

– O que seu pai faz, João?
– Ele é publicitário.

Respostas vazias me dão arrepios. E não desejei isso ao meu filho. Preciso fazer alguma coisa. Mas sou um completo analfabeto acadêmico. A prática havia me trazido até aqui. A teoria havia me abandonado cedo. Era órfão de pensamento. Resolvi agir – fazia sentido. Ganhei um curso de fotografia. Fiz. Gostei. Voltei a escrever para coisas que não fossem campanhas. Roteiros para séries de tv que falassem do Brasil. Músicas. Um livro. Ganhei um prefácio de Geneton Moraes Neto. Ganhei meu dia, nesse dia. Acreditei que era possível escrever, mesmo sem ler tanto. Entre a fotografia e a literatura, estabeleci um ponto de contato particular, um pin, uma estrela no meu mapa mental. Nasceu Irene, que filha incrível. Não planejada também. Uma risada é um sorriso que não foi planejado. Preciso trabalhar mais, mas em uma agência de publicidade não dá. Preciso conviver com meus filhos.

Respostas vazias me dão arrepios. E não desejei isso ao meu filho. Preciso fazer alguma coisa. Mas sou um completo analfabeto acadêmico. A prática havia me trazido até aqui. A teoria havia me abandonado cedo.

Criei uma Loja de Histórias. Você me manda uma foto sem me dizer nada sobre ela – e eu retribuo sua gentileza com um conto ficcional sobre essa imagem. Seis meses depois, seiscentas histórias contadas, doze mil fotos recebidas, uma coluna na revista Elle. Sempre tive amigos generosos, a Susana – editora da Elle – é uma destas. Espera. Então é possível brincar brincadeiras diferentes? É. E tem amigos do outro lado? Opa. Quero. Mais um curso de fotografia ali, vou fazer. Dessa vez, com mais dois amigos incríveis, generosos. Carol Lopes e Pio Figueiroa. Eles são dois (de quatro) integrantes de um coletivo fantástico que imprimiu um olhar único na fotografia brasileira contemporânea, a Cia de Foto. Estudar com eles era estudar como estudar como Borges, dentro de um livro dele. Fui. Nunca soube nada de fotografia – não sei até hoje. Mas acredito em osmose. E tenho convicção de que estar perto de pessoas boas nos faz melhores. Sentada, como aluna, nesse mesmo curso, Camila Guerreiro. Que sorte, a minha. Comecei a clicar feito um maluco. Malucos clicam tudo o que veem. Começaram a me convidar para fazer trabalhos de fotografia. Ah, então dá para brincar até mesmo daquelas brincadeiras mais difíceis? Quero. Topo. Fui. Ser destemido, apesar de medroso, me fez dar passos para fora da publicidade.  Convites para escrever, fotografar, roteirizar, dirigir documentários, fazer livros, logos, até um cardápio fiz. Perdi o medo. A gente pode brincar de qualquer coisa mesmo. Que coisa. Veio Teresa. O momento mais difícil. Uma filha não planejada – e que, por sinal, era a terceira. Finalmente descobri o que era amor. Um deslize. Um tropeço. Amor é o não-planejamento.

Nunca soube nada de fotografia – não sei até hoje. Mas acredito em osmose. E tenho convicção de que estar perto de pessoas boas nos faz melhores.

Aí é melhor que você veja isso*:

(*Leia o post – imperdível e necessário – que Pedro conta a história sobre a vivência do parto de Teresa, aqui)

Com três filhos, tudo o que eu não queria era uma caixa. Tornei-me o arlequim fujão. Dia desses, uma amiga que me conhece muito disse para o sócio: “ele é cavalo de várzea, a gente não vai conseguir prendê-lo aqui, não”.  Tatiana, te amo, amiga. Saí relinchando – e declinando – um convite de trabalho (fixo), mas conseguir contar a eles que poderia ser um colaborador em projetos especiais da agência dessa amiga e do sócio dela. Hoje, trabalho em projetos de naturezas diversas, sem formatos rígidos, mas com uma obrigação que levo muito, muito a sério. Só trabalho com quem admiro. Isso me move. Gente. Assuntar de gente. Abraçar de gente. Olhar de gente. Poesiar, cantarolar, rodopiar de gente. Minha brincadeira favorita é essa. Brincar de roda. Mãos dadas. Só para fazer vento no rosto do outro.

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Veio Teresa. O momento mais difícil. Uma filha não planejada – e que, por sinal, era a terceira. Finalmente descobri o que era amor. Um deslize. Um tropeço. Amor é o não-planejamento.

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Eu, analfabeto acadêmico sem diploma, fazendo mil coisas. Um arlequim malabarista que aproveita enquanto a casa dorme e foge para brincar só mais um pouquinho. É isso. Meu fazer é brincar. Vamos?

Odeir Santos