Foto de capa - Sole Yaya
FOTO Gleice Bueno

Sobre Sole Yaya

Sole Yaya é uma argentina encantadora. Deve ser por isso que escolheu a harpa como instrumento de sua paixão pela música. Feito as sereias, ela toca as cordas e toca a gente no profundo. A sua maneira de entender a vida, amando e respeitando cada etapa, mostra que é possível ser firme e doce ao mesmo tempo. Muito pequena, queria tocar violino. Depois, se apaixonou pela harpa no primeiro momento em que a ouviu. Viajou pelo mundo mostrando sua arte e veio morar em São Paulo, para tocar na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Lá, encontrou seu amor, um violista. Hoje, além de se apresentar em orquestras, Sole participa de um projeto lindo de harpa e voz. Ao conhecer sua história, você vai ouvir o seu ritmo de querer sempre mais. Mais música, mais encontros e novas oportunidades de emanar o encantamento da harpa para cada vez mais pessoas.

10 de setembro de 2014

Karine Rossi

E quando quiseres ouvir
Faça silêncio
Escuta o ar do mundo que entra em ti
Te percorre em dança
E depois sai em som
Ventando
Cantando

Quando conheci a história da Sole Yaya eu vivia sem sentir direito as coisas. Era um tempo estranho, meio parado, mas tinha um barulho dentro de mim. Eu a vi num restaurante, no aniversário de um amigo em comum. O cabelo dela me chamou atenção: ele tinha uma ponta indicando o norte. Perguntei quem ela era. “É a harpista da minha orquestra”, disse meu amigo. Uma mulher jovem, com aquele cabelo assimétrico, tocava um instrumento tão clássico que povoa meu imaginário no que diz respeito ao antigo. Quis saber mais sobre ela. Precisava ter certeza de que havia poesia na sua história para compartilhá-la aqui na #AMF.

Soube que a relação dela com a música começou com uma tristeza, ainda nos primeiros anos de vida: não ter sido aceita para estudar violino em sua cidade, Córdoba, na Argentina. Soube que, mesmo fracassado, ela continuou tentando e que foi preciso insistir no violino para descobrir sua vocação verdadeira, dedilhar a doçura dos sons nas cordas da harpa. Depois de ouvir como tudo aconteceu, sei que hoje ela é feliz com seu instrumento e realizada como mulher.

Ela veio morar em São Paulo, conquistou seu espaço no tempo e se casou. O marido é violinista. E a canção cíclica dessa história me mostra agora, no momento mais silencioso da minha vida – quando eu mais sinto todas as coisas – que seja qual for a direção, é preciso andar para a frente. Confiar nos mistérios do mundo e ouvir a melodia de cada passo caminhado.

Sole Yaya é uma mulher doce, como sua história, sua música. Como eu espero seguir cantando nesta parte da estrada.

“Durante a adolescência tive dúvidas sobre o que eu fazia. Eu via colegas com melhor futuro, com melhores condições econômicas e até crianças prodígios com carreiras brilhantes pela frente. Eu não tinha nada disso. Mesmo assim, a paixão era uma força que sempre me trazia para perto da harpa, tudo era bem mais forte que qualquer desânimo ou comparação. “

“Mas eu queria, eu precisava ter meu instrumento. Depois de um grande esforço, meus pais conseguiram o investimento para comprar uma harpa só para mim. Mas, a proprietária sempre desistia na hora de me vender.”

Conheça a história de Sole Yaya

Acho que, aos quatro anos de idade, nenhuma criança conhece o significado do fracasso. Mas, para mim, este foi o momento do meu primeiro: não ter conseguido entrar no Método Suzuki para estudar violino. Os professores disseram a minha mãe que eu não estava apta a entrar naquela escola de música porque eu era muito tímida. Lembro que doeu… Lembro que essa foi minha primeira tristeza e jurei que nunca mais seria tímida, pois isso significava perder coisas valiosas.

 Foi ela, minha mãe, que criou o interesse pela música em mim. Meus pais, aliás, sempre me motivaram a aprender diferentes disciplinas, como dança, línguas, desenho e esportes. Eles foram as grandes influências para eu entrar no universo da música. Toca-discos e rádios sempre ficavam ligados em casa e, desde pequena, isso significava viver num mundo ideal.

Passado quatro anos da primeira decepção sofrida, comecei a estudar no Conservatório Provincial de Música de Córdoba, na Argentina, minha cidade natal. Eu tinha oito anos e, depois de um tempo aprendendo violino, escutei uma harpa solando a cadência do Balé Lago dos Cisnes (de Tchaicovski) lá mesmo no conservatório. Foi amor à primeira vista. Nesse momento, eu tive uma certeza muito feliz do que queria fazer com minha vida. Descartei o violino e chorei contando minha decisão a minha mãe, que sempre sonhou comigo tocando o instrumento. Mas, ela me consolou docemente, dizendo que não importa a escolha. O mais importante na vida é ser feliz com o que se faz. 

“Com o dinheiro que ganhei desde os 17 anos, trabalhando com minha música, consegui estudar harpa em Paris durante um bom tempo. Depois, veio o convite da Osesp e mudei para São Paulo.”

Então começou um longo caminho. Cursei 12 anos para me formar no conservatório. Eu não tinha minha própria harpa. Além de muito cara, até hoje não existe quem fabrique o instrumento na Argentina. Eu só a via e a tocava no conservatório. E aproveitava todo o tempo que podia com ela. Chegava a adormecer sobre ela.

Durante a adolescência tive dúvidas sobre o que eu fazia. Eu via colegas com melhor futuro, com melhores condições econômicas e até crianças prodígios com carreiras brilhantes pela frente. Eu não tinha nada disso. Mesmo assim, a paixão era uma força que sempre me trazia para perto da harpa, tudo era bem mais forte que qualquer desânimo ou comparação.

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 Mas eu queria, eu precisava ter meu instrumento. Depois de um grande esforço, meus pais conseguiram o investimento para comprar uma harpa só para mim. Mas, a proprietária sempre desistia na hora de me vender. Após algumas tentativas (frustradas) a mulher me disse: “por que você não se inscreve no Concurso Nacional de Jovens Harpistas da Argentina? O prêmio é uma linda harpa!”. Me inscrevi, consciente de que iria concorrer com músicos extraordinários. Sem muita pretensão, eu fui. Me apresentei e ganhei o 1º prêmio – uma harpa nova, construída na fábrica da Lyon & Healy, em Chicago, USA.

Eu me formei no conservatório e continuei estudando “Composição” na Universidade Nacional de Córdoba. Logo, ganhei uma bolsa para estudar Harpa em Buenos Aires e deixei em suspenso a carreira de Composição. Já com instrumento próprio, comecei a me apresentar como solista em orquestras, hotéis, eventos, peças musicais de teatro e participar de gravações de CD’s e DVD’s. Isso me deu a experiência que precisava para disputar uma vaga na Orquestra Académica do Teatro Colón e começar a viajar pelo mundo.

Com o dinheiro que ganhei desde os 17 anos, trabalhando com minha música, consegui estudar harpa em Paris durante vários anos. Depois, veio o convite da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e mudei para São Paulo, onde me formei na Faculdade Santa Marcelina, em Harpa.

“O Brasil é o lugar onde pretendo ficar, porque cada dia é uma nova aventura artística. Há muito para fazer e sempre há pessoas com forças para levar a cabo novos projetos.”

Foi uma época maravilhosa. Já estava apaixonada pelo povo brasileiro antes mesmo de chegar em São Paulo, então a mudança foi cheia de fascinação e descobertas. As pessoas sempre muito gentis e logo fiz amigos que viraram família para mim. Aqui é o lugar onde pretendo ficar, porque cada dia é uma nova aventura artística. Há muito para fazer e sempre há pessoas com forças para levar a cabo novos projetos.

E também foi aqui no Brasil, na Osesp, que conheci meu marido: o Peter, um homem profundamente comprometido, que demonstra toda sua nobreza por meio da música. Eu gosto de observar em silêncio essa beleza. Sempre me emociono e me surpreendo com seu gosto refinado e delicado de tocar seu instrumento: a viola erudita. Nosso relacionamento melhora em cada ensaio e a cada obstáculo. Ele tem uma paciência incrível comigo e isto gera mais respeito e amor da minha parte. Sinto que pequenos milagres acontecem entre nós quando fazemos música juntos. 

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E logo começaram as turnês: Estados Unidos, Europa, Austrália e países sul-americanos. Tive a oportunidade de me apresentar em lugares muito importantes: em New York, (Metropolitam Museum), Washington, Miami, Viena (o Musikverein), Colônia (Koln Philarmonie). Toquei também em Paris, Berna, Seul, Montreux, Madrid, Barcelona, Lisboa, Budapest e Varsóvia e, para minha alegria, novamente no Teatro Colón, dessa vez com a Osesp.

Amo as sonoridades, mas amo também o silêncio, um dos meus momentos favoritos na música. 

Eu sinto que a música faz bem a todos os seres vivos. Para mim, foi um “chamado”, pois tem a ver com a energia na qual sintonizei minha vida. Acho que essa sintonia pode ser denominada destino. Gosto de ficar de ouvidos bem abertos à vida para escutar o maior número de chamados possíveis e assim viver ao máximo todas as oportunidades que me chegam.

Acredito que todas as pessoas podem se expressar através da música: quem a toca, quem a canta, quem se mexe e dança e até quem te manda um link com um som, porque sabe que você vai gostar.

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Quando toco meu instrumento, ele me toca diretamente na barriga. Eu sinto o som da harpa nos braços, no peito, nos dedos… Cada corda tem uma vibração diferente, que em alguns casos, chegam até a me dar arrepios.

Uma vez conheci um músico cuja mãe era harpista. Ele disse que se lembra do som da harpa enquanto ainda vivia na barriga!

Amo as sonoridades, mas amo também o silêncio, um dos meus momentos favoritos na música. Quanto ao som, estar atento ao som do momento é a ferramenta mais útil que encontro para viver o agora. O som é uma guia que adoro seguir para viver cada momento do dia!

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Embora trabalhe com um instrumento clássico, procuro estar sempre inserida no contemporâneo. Quando estudei composição na Universidade Nacional de Córdoba, um querido professor disse para a turma: “o artista deve estar comprometido com seu tempo”. Isso me faz criar ao máximo um compromisso com as possibilidades do músico do século XXI.

Além da prática no instrumento, vou construindo minha carreira com a ajuda da tecnologia, tentando aproveitar as ferramentas disponíveis na internet para a comunicação e divulgação do meu trabalho. Isso também me ajudou a ganhar grandes amigos e colegas que colaboraram para desenvolver novas ideias musicais.

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Hoje, meu  principal trabalho é no Teatro Municipal, na Orquestra Experimental de Repertório (OER). Mas, também gosto de aprender novos estilos musicais, especialmente os brasileiros. Gosto de criar parcerias e  realizar projetos que me trazem muito prazer. É assim o meu trabalho com Lorenza Pozza, uma cantora que criou o projeto “Harpa e Voz”, um novo conceito para música de casamentos. Há cinco anos trabalhamos juntas e cada dia gostamos mais e mais da nossa dinâmica.

 Vivo muito no presente, pois é maravilhoso tudo o que está acontecendo agora. Mas, sonho em fazer a harpa ser mais escutada no Brasil. Sonho com continuar conhecendo músicos e pessoas maravilhosas para tocarmos juntos. É por isso que eu realmente amo meu fazer, porque é uma aventura cheia de arte, amigos e amor. 

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Eu sinto que a música faz bem a todos os seres vivos. Para mim, foi um “chamado”, pois tem a ver com a energia na qual sintonizei minha vida.  

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“O artista deve estar comprometido com seu tempo”.

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Estéfi Machado